14.2.13

Deamblogações nocturnas

A experiência vivida condiciona a nossa vivência presente e com isso a nossa vida futura. Achamos que há coisas que damos por adquiridas que, exactamente por as darmos por adquiridas, são imutáveis e não mudarão nunca porque já as conhecemos.
Isto é assim até termos as condições benéficas para percebermos (e apercebermos) as coisas como elas são, sem filtros positivos ou negativos, i.e., sem preconceitos de qualquer espécie.
Na relação com o outro estes condicionalismos estão sempre a acontecer. Ora porque pensamos em nós de uma determinada maneira e com isso influenciamos a experiência vivida com o outro, ora porque julgamos e reduzimos o outro àquilo que julgamos que ele é. Na verdade, isto não é viver o que realmente acontece e, assim, deixamo-nos literalmente abafar por uma cortina de fumo que nos impede de aceder à experiência verdadeira, seja ela boa ou má.
Os afectos e, de entre eles, o amor talvez sejam o que é mais influenciado por essa barreira.
Ao despirmo-nos de preconceitos, sentimos directamente na pele e no coração o que se passa verdadeiramente, sem constrangimentos de qualquer espécie. Isso pode impactar muito connosco, uma vez que não estamos habituados a estar nus no sentido referido. Pelo contrário, estamos constantemente a medir-nos com os outros e, desse modo, connosco próprios num braço de ferro que inevitavelmente acaba por empobrecer o que julgamos que é a vida.
A existência tal como é é incomensuravelmente mais rica do que a percepção que dela temos no dia-a-dia.
Em condições propícias, descobri ao fim de quase 40 anos o que é o amor (não contando evidentemente com o amor filial que está para além de qualquer preconceito). E descobri que o amor é independente de sexo, raça ou credo e que isso não é mentira e um mero lugar-comum. E também descobri que o amor sentido sem barreiras é de uma dimensão verdadeiramente assombrosa, de dádiva incondicional, de afecto, de carinho, de preocupação, de cuidado pela outra vida.
Foi a maior descoberta de toda a minha vida e sinto-me infinitamente grato por isso. E isto é independentemente de resultados ou experiências futuras de repetição ou de não repetição. Esse despir aconteceu e é impossível de ser apagado do registo não apenas da memória vivida mas também e sobretudo da vivência presente.