Há órgãos e entidades que nasceram mal, porque não deviam ter nascido, e vão sobrevivendo de igual modo. O caso da ERC é paradigmático. Criada para que todos nós pensássemos que existe, de facto e de direito, uma entidade reguladora da comunicação social, independente e com poderes próprios, que pusesse fim às pressões sobre a mesma. Foi, pois, extinta a AACS e criada esta. Só que, como bem sabemos, os membros do orgão director são nomeados pelos dois maiores partidos, o que, como é óbvio e só não percebe quem ou não conhece as indiossincrasias portuguesas ou está eivado de má fé, faz com que não haja uma única deliberação que não esteja cheia de conotações e intenções políticas. Isso sim, é instrumentalização, embora branqueada de independência e isenção. Como, de resto, é costume entre nós: liga-se à forma e não à substância. Como diria VPV, para enganar o indígena.
Agora foi Raquel Alexandra que, ainda no caso das pressões de Relvas (este ministro dá muito que falar) sobre a jornalista do Público, vem queixa-se de ter sido vítima de "chantagens e ameaças", dizendo mesmo que "foi extremamente grave. Não imagina o ponto a que as coisas chegaram". Claro que no momento em que ia provavelmente detalhar esse aspecto, o presidente da ERC avocou a palavra e cortou cerce qualquer hipótese.
Eu estou-me quase nas tintas para isto porque pressões sobre a imprensa sempre houve e sempre haverá e, quanto a mim, bastaria fazer funcionar os tribunais comuns (isso sim, do que o país precisa) para julgar casos de eventual manipulação ou pressõa. O que a mim me confrange é estarem a gastar o meu dinheiro com coisas destas que não servem para nada e contribuem para corroer ainda mais a percepção que todos nós temos das instituições públicas, e, do mesmo passo, fazerem de mim parvo porque pensam que eu engulo que a ERC (e outras ERC's...) é necessária e útil ao país e à melhoria da nossa democracia. Isso é que me revolta atrozmente e me faz estar cada vez mais revoltado com quem decide. Se a Raquel Alexandra se sentiu manipulada, pressionada e chatageada, que vá para os tribunais. E, já agora, porque razão não pôs já o lugar à disposição? Era o que eu faria e foi o que fez outro antigo membro da ERC da anterior Direcção quando considerou não ser mais suportável o que lá se passava.