28.5.12

Deamblogações matinais

Tristíssima miséria a nossa quando ninguém faz mais do que quase nada perante o que se tem vindo a passar. Miséria, de facto, não haver um coro bem sonoro de indignação com tudo aquilo a que temos assistido. Políticos, ex-políticos, banqueiros, bancários, vendedores de pechisbeque, enfim, um rol que não acaba, tudo numa teia que enriqueceu muitos durante muitos anos. Miséria quando ninguém dá a merecida importância ao que se tem passado no "caso Relvas", com a promiscuidade mais do que evidente entre o Governo (sim, o Governo, não me queiram convencer que Relvas ou, pior, o seu adjunto, actuou sozinho por interesses pessoais; e se actuou, não importa porque utilizou meios do Estado à sua disposição enquanto membro do Governo, o que vai dar ao mesmo) e o que chamam de "secretas", pergunto-me por que razão ainda. Miséria porque ninguém se indigna com a mudança de discurso (aqui e em todo o lado) desde a vitória de Hollande, passando a ser obrigatório e politicamente correcto utilizar o vocábulo "crescimento", como se o crescimento aparecesse por gestação espontânea e não fosse a consequência de tudo o resto. Miséria pela total falta de verticalidade de quem nos governa, pela constante disponibilidade para fazer compromissos com o que não é transigível.
Pois é. Alguém me dizia há horas atrás que o Inferno existe mesmo e que o Inferno não é serem mortas crianças e pessoas, nem existirem calamidades naturais, porque tudo isso sempre existiu. Mal e infelizmente, mas sempre existiu. O Inferno é ninguém mais se indignar com a podridão de parte da sociedade que se foi criando e está à vista de todos. Isso é que é o Inferno e nós estamos a arder nele e continuaremos a arder nele cada vez com mais força.
Cada vez gosto mais dos que demonstram a sua indignação sem pejo e com motivos. E não é, hoje, preciso estar com fome para o fazer. Basta ler, ouvir e pensar. Mas o pensamento é hoje demasiado frágil, abanando e perdendo-se com a força do vento e isso é talvez a principal razão que nos faz arder como paus secos em época de calor.