13.2.12

Regra e esquadro



O que está a acontecer na Grécia é, à falta de melhor qualificativo, inacreditável. Ponhamos as coisas simplisticamente como elas são: um país viveu sempre (sublinhe-se o "sempre"), e sempre até por razões históricas, de determinada maneira. E essa maneira era não pagando impostos, com uma economia paralela incomensurável e criando défices atrás de défices. A certa altura, esse país foi admitido na então CEE e mais tarde no Euro. Primeiro motivo para espanto. Tudo continuou como dantes, quartel-general em Abrantes. O país e os seus cidadãos continuaram a gastar o que não tinham, a não pagar os impostos que deviam e a fazer florescer a economia paralela. Segundo motivo para espanto. Tudo isto sem que as autoridades europeias responsáveis pela moeda única alguma vez dissessem que era preciso mudar estruturalmente o estado das coisas. Terceiro motivo para espanto. Vem a crise. Na verdade, as crises. De repente percebe-se como tão facilmente a casa pode vir abaixo, arrastando atrás de si muita, mas mesmo muita coisa e, desse modo, criando um caos de consequências inimagináveis. Só então isto começou a ser visto como plausível. Quarto motivo para espanto. Pois, então, foram uns senhores das instâncias regulatórias financeiras internacionais para o tal país, traçar a regra e esquadro um plano de salvação. Salvação nacional do dito país? Não. Salvação de todos os outros países da UE, salvação da própria moeda europeia. Quinto motivo para espanto. Esse primeiro plano não funcionou e tudo continuou na mesma nesse país, porque esse país jamais aceitou as medidas que quiseram impor-lhe, porque esse país vive endemicamente de uma forma que não é compatível com as regras financeiras estritas da UE. Mais arruaça menos arruaça (e foram muitas as arruaças que entretanto tiveram lugar), chegou-se à conclusão que teria de haver um segundo plano, sob pena da enxurrada levar tudo atrás. Isto, relembre-se, muitos milhares de milhões de euros depois. Sexto motivo para espanto. Chega-se a agora e o agora é um plano de cumprimento absolutamente inimaginável. E inimaginável não por tudo o que se disse antes e porque se trata da Grécia, mas porque seria inimaginável em qualquer país do mundo, num mundo civilizado e democrático em que, no fim de contas, a população tem alguma coisa a dizer sobre o que pretende para si própria e, em última análise, pode decidir sofrer da maneira que bem entender. Ora, o que acontece neste preciso momento com a Grécia é que o que se prepara para a sua população é, talvez, das maiores reviravoltas da História, não apenas em termos da sua vida diária e dos seus costumes, mas da própria cultural e da vivência política, social e económica. Que se escreva e anote que isso não é possível por decreto, não é possível porque uns senhores quiseram impô-lo a regra e esquadro, sem atender às milhões de situações dramáticas que iriam criar, às centenas de milhares de emigrações, à fome, à miséria, à perda de esperança numa vida inteira (e não apenas num futuro mais ou menos breve) de um povo inteiro. Isto não é admissível nem aceitável e é bom dizê-lo.
A UE está a perder todos os dias apoio, o pouco apoio que ia tendo junto dos seus cidadãos. Se existe um espírito e uma identidade europeus, eles têm de ir ao encontro dos gregos. Porque hoje são os gregos, o que só por si seria relevante, mas amanhã no seu lugar estão os portugueses, os espanhóis, os italianos. Chega.