25.1.12

Deamblogações vespertinas


Eu não sei em que mundo vivemos. Parece que estamos a chegar ao fim de uma época. Uma época em que havia muita, mas mesmo muita porcaria escondida debaixo do tapete. Uma época em que poucos aproveitaram como se não houvesse amanhã aquilo que estava destinado a ser partilhado por muitos, por muito mais do que esses poucos, eventualmente por todos. Uma época em que o que parece não é e em que o que é não parece e parece que é aquilo que não é. Uma época de confusão induzida por aqueles a quem a confusão interessa e aproveita. Uma época cheia de fait divers que em nada interessam à gente que trabalha seriamente, que faz sacrifícios, que paga os seus impostos honradamente e que, por isso, esperava mais de todos aqueles que têm ou tiveram responsabilidades públicas.
Enfim, rezará indubitavelmente a história que estamos a chegar ao fim de uma época. Não tenho dúvidas disso. Mas este estertor queimará uma, senão mais do que uma, gerações inteiras, onde me incluo, a qual não apenas andará por muitos e bons anos a pagar os pecados cometidos no passado e ainda no presente, como não aproveitará em quase (?) nada o que de bom foi feito. Essas gerações andarão a comer em terra queimada, selvaticamente queimada, por todos aqueles que destruíram este país aos poucos nos últimos (muitos) anos.
Isto já de si é mau de mais para um país que se arroga constantemente (arrogam por ele...) a qualidade de civilizado e pertencente ao pelotão do primeiro mundo, o mundo da frente e desenvolvido ao qual queria, na verdade, pertencer. Mas não é o país que pertence ou não. Quem pertence são as suas gentes. E parte importante das gentes que liderou todas as outras gentes deste país é, por muito que grite o contrário, inculta, pacóvia, arrogante, desonesta e interesseira.
Estranho mundo este em que vivemos.
Estranho mundo este em que um anterior primeiro ministro, exactamente o mesmo que, consensualmente, consolidou não as contas públicas, mas a desgraça para onde caminhámos inelutavelmente, vive com fausto em Paris (where else?...), no seizième - bairro maioritariamente habitado por BCBG's, essa classe com berço a que ele tanto gostaria de pertencer -, frequenta brasseries, livrarias de intelectuais, cafés chiques (a valer...), e, pormenor delicioso, onde estuda Ciência Política (as tão famosas Sciences Po que meio mundo gostaria de ter frequentado). Mas não se pense que, verdadeiramente, estuda (no sentido etimológico do termo). Não. Nada disso. Apenas frequenta, porque não se submete a exames. Talvez fosse de mais para ele? Ou estará acima disso? Talvez seja o nome...
Estranho mundo este. Em que mais ninguém estranha que isto que atrás se disse custa muitos e muitos milhares de euros por mês. Em que mais ninguém estranha que um homem cuja carreira esteve sempre ligada ao Estado (sublinho: SEMPRE), possa dar-se a estes luxos. Em que mais ninguém estranha que esse mesmo homem, cujas declarações de rendimentos foram obrigatoriamente sempre públicas, sem que nunca tivesse sido declarado qualquer rendimento substancial ou súbito, possa, finda uma brilhante e intensa carreira como deputado, secretário de Estado, ministro e primeiro ministro, viver actualmente em Paris como se fosse um dandy a torrar a fortuna deixada por uma tia-avó. Estranho mundo este...
Esta complacência contra a qual poucos se revoltam publicamente enoja-me. Enoja-me.
Eu sei que é feio, mas tenho inveja de Sócrates. Gostaria, mais, adoraria fazer a vida que ele actualmente faz. Viver em Paris, estudar Sciences Po, viver no seizième, frequentar brasseries, livrarias de intelectuais e restaurantes e cafés chiques, poder passear junto ao Sena, dar um pulo à Place des Vosges, passar por debaixo de um arco que existe ali ao pé de mão dada com alguém, contemplar, apenas contemplar, Montmartre imperial ao longe sobre o bairro com o mesmo nome e andar na Rive Gauche incógnito sentido-me Cézanne.
Realmente gostaria.
Mas não posso. É que por momentos esqueci-me que faço parte de uma geração azarada, que tem de trabalhar sem emprego, que tem de pagar contas para as quais não tem dinheiro, que tem de sufocar em impostos, que tem de emigrar por não haver emprego, que tem de endireitar o país, que tem de se sacrificar pelo défice, que tem de empobrecer, que tem de aguentar. Que tem de aguentar. Que tem de aguentar.
Que tem de ser confrontada com misérias como as de ter um ex-primeiro ministro a viver em Paris, exilado do que fez, nas condições em que faz. Talvez a ganhar tempo para um dia voltar e acabar a obra.
Que triste miséria.