28.9.11

Deamblogações matinais

Duros tempos estes. Em que a economia portuguesa e mundial está como está e cria enorme incerteza quanto ao futuro, para além da certeza de um futuro pior. Em que não há liderança e, por não haver liderança, não existe um rumo que nos sirva de esperança para o encontro de uma solução. Em que cada um pensa uma coisa e diz outra e o que pensa e diz é diferente consoante as circunstâncias e os interesses do momento. Em que o mundo tal como o conhecemos até hoje, com o equilíbrio geo-estratégico definido desde a segunda guerra mundial e, mais tarde, desde a queda do muro, não pode continuar a existir. Em que ninguém, mas rigorosamente ninguém, consegue prever o que acontecerá daqui a seis meses. Em que, por tudo isto e muito mais, todos temos a sensação de que podemos estar a trabalhar para nada, literalmente para aquecer, porque, entretanto, o medo da conjuntura leva-nos o dinheiro nos impostos que pagamos (quem ainda pode pagar impostos) e não nos dá nada em troca, nem SNS, nem segurança social, nem medicamentos, nem educação, nada de nada. Em que não perspectivamos o que pode ser a vida dos nossos filhos, sendo que a antecipação do futuro é, por natureza, inerente ao processo educativo (no sentido do "upbringing" inglês). Em que o que temos hoje não sabemos se manteremos amanhã. E amanhã é mesmo amanhã, o dia depois de hoje. Toda esta incerteza é certa, certa como a dureza dos tempos que vivemos. E vem pior.

23.9.11

21.9.11

Surrealismo insular

Ontem via alguns canais de notícias. Em todos eles, a chamada de capa era a Madeira e o novo buraco orçamental de € 2M descoberto pelo Tribunal de Contas. Creio que na RTP-N foi feito um directo para um comício em que o Dr. Jardim discursava com aquela verve singular, entre perdigotos e inanidades. Mais ou menos de 30 em 30 segundos, o Dr. Jardim calava-se para recuperar o fôlego, dando lugar a uma banda que assegurava que nesse período de tempo não se instalava o silêncio. Foi então que me dei conta que nesses intervalos eram tocados (por duas vezes) os primeiros acordes do hino do PSD. Bizarro (e saloio), pensei, mas o melhor estava para vir: num desses pequenos interregnos, o Dr. Jardim olhou para o relógio e retoma, dizendo qualquer coisa como isto (cito de cor): "Bom, meus amigos, são horas de jantar e eu não vos quero maçar nesta hora de jantar. Mas quero pedir-vos uma coisa. Quero pedir-vos que me ajudem. (sic) Ajudem-me. (sic) Ajudem a mais uma vitória clamorosa do PSD-M, etc., etc.". Enquanto isso, a banda desta feita não se calou. Logo que o Dr. Jardim começou, com voz lamechas, a pedir ajuda aos eleitores, iniciou-se uma musiquinha também ela lamechas a puxar ao sentimento, como se se tratasse do Perdoa-me ou de outro programa do mesmo estilo.
Isto seria só divertido se não fosse grave de mais. É que é grave de mais o que se soube na Madeira por estes últimos dias. Não há argumento ou motivo que legitime tamanha desfaçatez e sem-vergonha. É de uma irresponsabilidade a toda a prova. E mais: é a prova de que, verdadeiramente, o Dr. Jardim e os seus caciques se estão completamente nas tintas para o país, porque sabem que os seus responsáveis políticos sempre lhes deram cobertura e assinaram por baixo as contas que sempre foram deficitárias. Até ao dia. Eu cá por mim estou-me rigorosamente nas tintas para a Madeira. Se querem a independência, pois tenham-na. Mas desconfio que essa bandeira sempre serviu muito mais de ameaça chantagista do que de verdadeiro aviso. Isso é que era bem feito: ai o Dr. Jardim ameaça com a independência? Pois tome, aqui a tem! A ver como se governavam...

20.9.11

É a loucura...

"Portugal é o país da UE com mais autoestradas", segundo o Expresso on-line.
No comments.

16.9.11


15.9.11

Inquietações matinais

Isto está mau há muito tempo, hoje está pior do que já esteve e no futuro próximo estará muito pior. Dá a sensação de que muita, mas muita gente ainda não percebeu isso.

13.9.11

Inquietações matinais

O que mais me espanta - e já aqui o disse - na crise europeia é a evidente falta de antecipação por parte dos diferentes líderes, desde os dos próprios países aos das instâncias europeias, à evolução que, contas feitas, tem sido mais ou menos previsível e estável (se é que se pode falar de estabilidade). Não é preciso ser especialista para se perceber um par de coisas:
a) existem, de facto, interesses em atacar o Euro;
b) os líderes europeus não têm sabido antecipar os problemas;
c) os líderes europeus não têm sabido (?) comunicar com os cidadãos europeus, explicando-lhes o que se passa;
d) os líderes europeus não têm falado verdade e andam a tentar enganar os cidadãos europeus, dizendo-lhes o que toda a gente percebe que é mentira (que os países A, B e C não vão entrar em default - e vão mesmo; que a Grécia não vai incumprir - e vai mesmo; que o Euro não está em crise profunda - e está mesmo; que a Itália e a Espanha estão muito acima dos problemas dos restantes países periféricos - e não estão nada; que os Eurobonds não são necessários - e são mesmo; etc., etc.).
Ou se enfrenta a realidade tal como ela é ou estamos perdidos e o paradigma vai mesmo mudar e à lei da bala, quer se goste quer não. A este propósito, cito um artigo publicado no Jornal de Negócios on-line sobre o que disse Felipe Gonzalez muito recentemente. Poderá ter dito outras coisas menos certas, como toda a gente em todo o lado, mas o essencial é isto mesmo:

"Felipe Gonzalez falava na apresentação do livro ‘La fragmentación del poder europeo’, de José Ignácio Torreblanca, na sede da Fundação Mapfre, em Madrid, noticia a EFE.

“O diagnóstico tem de ser severo, rigoroso e deve ter o grau de alarme e emergência que a situação exige. Estamos à beira do precipício”, afirmou. “Por que não dizer que estamos à beira do precipício? Ou é preciso saltar para o precipício para reagir?”, lançou Felipe Gonzalez.

Mostrando-se apologista de os líderes europeus falarem “honestamente” com os cidadãos sobre os problemas que tem a União Europeia (UE), que, na sua opinião, “está mal e a reagir em agonia” à crise económica.“Como não tenho responsabilidade institucional, digo o que me apetece”, esclareceu o antigo chefe do Executivo espanhol, considerando que os problemas europeus têm solução, mas que é necessário que os Estados Membros reconheçam a situação institucional e económica em que estão, sobretudo devido ao caso de Atenas.

Felipe Gonzalez comparou os mandatários europeus a “galgos que correm atrás de uma lebre mecânica que nunca se sabe quem carrega”. Para o político, atribui-se a culpa aos mercados porque não se sabe quem leva essa lebre, “atrás da qual correm os galgos e, quando pensam que a vão morder, estão a dez metros e voltam a correr em agonia para morder a lebre e separam-se outra vez”. Gonzalez considera que é assim que se viveu o mês de Agosto, referindo-se às turbulências nos mercados.O ex-presidente do governo insistiu que se os líderes e as instituições da UE “não têm a sensação de que se está à beira de um abismo, que pode não ser reversível, segue-se uma política agonizante de perseguir a lebre enquanto os galgos vão à falência”.

Sobre a Grécia, Gonzalez interroga-se sobre se é possível resgatar o país, bem como se submetê-lo a uma redução do défice a “velocidade de cruzeiro” não poderia ser contraproducente.O antigo presidente do governo espanhol considerou compreensível que não se esteja a investir na Europa, “começando por Espanha, porque ninguém vê uma perspectiva de crescimento estável a três, quatro ou cinco anos”.

Como tem feito nas últimas semanas, Felipe Gonzalez reclamou uma política económica e orçamental comum na UE e que se dê início à criação de 'eurobonds' [obrigações europeias], o que, considera, daria estabilidade às contas de cada país.Gonzalez disse ainda que os cidadãos não compreendem o que se está a passar na Europa e que os políticos, em vez de apresentar uma explicação, estão a “contribuir para a confusão”."

8.9.11

7.9.11


Roy Lichtenstein

6.9.11

Deamblogações matinais 2

"Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, espera que Paulo Bento “tenha a capacidade para ultrapassar este problema”.
Em declarações à rádio Renascença, Evangelista disse que o jogador e o seleccionador nacional “ainda estão a tempo de sanar o problema, apesar daquilo que foi dito”, mas considera que “tem de haver alguém com capacidade de ajudar a minimizar este problema”.

O dirigente espera “que o Paulo [Bento] tenha a capacidade para ultrapassar este problema e permitir que o Ricardo [Carvalho] volte à selecção, porque a selecção precisa dele e o Ricardo merece essa oportunidade”.

“Do que depender de mim, tudo farei para que isso suceda. Conheço ambos muito bem, pelo que estou convencido que vão ceder no que for preciso para defender o melhor para a selecção nacional”, concluiu Evangelista" 

Público on-line, 06/09/2011

Eu não disse?

Deamblogações matinais

"De acordo com informações recolhidas pelo DN, há uma facção, na FPF, que pondera intervir junto do seleccionador no sentido de o procurar sensibilizar para a importância que Ricardo Carvalho tem para a equipa."
DN, 06/09/2011

O que é que eu disse?

5.9.11

Deamblogações vespertinas

O episódio do jogador Ricardo Carvalho revela o que de pior existe nesta sociedade cada vez menos dotada de valores e princípios. Um jogador seleccionado abandona o estágio num exercício puro de birra. Um daqueles exercícios que vemos os filhos de 5 anos terem e que, confesso, me apetece sempre correr à bofetada. A diferença(zinha) é que o jogador Ricardo Carvalho é adulto e não tão novo quanto isso. Tem não só idade como experiência para não ter feito o que fez. Pelos vistos, maturidade é o que lhe falta. Abandona, pois, o estágio porque, coitado, não foi convocado para o jogo. Que desfaçatez do Paulo Bento! Foge, depois, num carro que estava mais ou menos escondido e, escassas horas depois, emite um comunicado (comme il faut) a dizer em frases formais o que lhe ia na alma. Alguém disse - e eu concordo - que aquilo parecia estar escrito há muito tempo. Entretanto, o seleccionador chama-o desertor, aliás com toda a razão (não é apenas ser desertor, mas também cobarde, imaturo, não solidário para com os restantes colegas, irresponsável, etc.), e começa uma guerra de palavras. Paulo Bento, no dizer de Carvalho, é afinal de contas um mercenário porque é pago para desempenhar a função. Fiquei a saber que o jogador, para além de tudo aquilo que disse acima é inculto ou, no mínimo, parvo porque não deve saber o que significa o termo "mercenário".
Mas, viria o pior e é aqui que eu digo que isto revela o que de pior esta nossa sociedade tem: começou-se a ouvir um coro de vozes pro-Ricardo Carvalho, em nome do que ele sempre fez pela Selecção, em nome do grande homem (com agá grande) que é, em nome disto e daquilo. Desculpem-lhe qualquer coisa, porque ele ferveu em pouca água, afinal quem não sente não é filho de boa gente, etc., etc.. Enfim, um rol de coisas absurdas.
Ninguém neste país parece capaz de assumir o que faz. Bem ou mal, Carvalho fugiu. Pronto. Bem ou mal, não interessa. Pois que seja coerente até ao fim. Não venha agora dar uma de arrependido e abrir a porta para que o recebam novamente na Selecção Nacional. Como português, sinto-me ofendido pelo facto de a Selecção não ter reagido disciplinarmente contra o jogador. Não é apenas com Paulo Bento que ele não devia voltar. A questão não está no treinador. A questão está na atitude e ponto final.
Eu tenho a certeza que vai continuar-se a falar deste caso e, qualquer dia, a coisa está neste ponto: Ricardo Carvalho afinal teve alguma razão. O seleccionador afinal desrespeitou-o de forma inaceitável, o que não lhe deixou margem de manobra para qualquer outra reacção. Bento não tem razão alguma. Bento é culpado. Bento talvez devesse demitir-se. Carvalho foi o bode expiatório da mão de ferro excessiva e desmedida do treinador. Não pode ser. Ricardo Carvalho faz muita falta e a selecção das quinas já não é a mesma sem ele. Volta Ricardo, estás perdoado pelo que, afinal, nunca fizeste! Isto é uma cabala. Bento rua!
Vale uma aposta?

1.9.11


Por vezes é difícil vê-lo, por entre a bruma e a tempestade. Por vezes desaparece momentaneamente quando há uma onda mais alta que lhe tapa a luz. Por vezes parece que se apaga de tão fraca que é a luz.
Mas ele está lá. Sempre. A alumiar o caminho.