29.4.11

Deamblogações vespertinas

"Se gostas de mel, aguenta as abelhas."

25.4.11

Inquietações vespertinas

"Hoje está na moda fazer dos políticos os bodes expiatórios de todos os nossos males, precisamente, porque transferimos para eles, de forma mágica, a salvação do país, distraindo-nos da nossa intransferível responsabilidade cívica. Alienamo-nos repetindo que eles não deixam espaço à sociedade civil, mas é esta que se demite da sua vocação e entrega tudo na mão dos partidos, que, por natureza, são apenas parte da acção política. A vida em sociedade tem muitas dimensões e expressões e, por vezes, os meios de comunicação social, cegos pela poeira dos acontecimentos políticos e por tudo o que corre mal, roubam aos cidadãos o país real, na sua complexidade. A verdade passa a ser a representação que eles nos distribuem."
Frei Bento Domingues, in Público de 17/04/2011

18.4.11

16.4.11

Deamblogacoes vespertinas

"Il n'arrivait pas a comprendre d'ou lui venait sa peur (...). Pourquoi craindre pour sa vie alors qu'il ne l'avait jamais si bien maitrisee depuis des annees? Pourquoi s'imaginer au bord du neant quand a tete reposee sa raison lui disait qu'il lui restait tant de reserves de vie pleine et entiere?"

Philip Roth, Un homme

15.4.11

Inquietações nocturnas

Nunca vi tantas contradições em tanta gente pelo mundo fora. Tão depressa se diz uma coisa como exactamente o seu contrário. Mais: trata-se muitas vezes de gente seria, que não diz habitualmente baboseiras. Portugal precisa de ajuda. Portugal não precisa de ajuda. Portugal devia pedir um empréstimo intercalar. Portugal devia negociar toda a ajuda já. Portugal foi tramado pelos especuladores. Portugal deve a sua situação a si próprio. Etc., etc.
E de mais para se perceber, para se confiar. A sensação que se tem e a de que não há certeza de nada num mundo caótico e frágil em que não há lideres fortes e determinados que se imponham a critérios económicos.

14.4.11

Inquietações matinais

 Obssession, Marc Chagall

O que é que se leva desta vida senão a própria vida? Tudo o que se fez e pensou, pensou e não se fez. Tudo o que se disse e não disse. As memórias ficam para os que ficam. Para quem passa, as memórias de nada valem, já que são passado e a existência continua de uma outra maneira e o futuro é o que ainda não aconteceu.
Assim, as memórias são uma âncora que nos dão um chão e balançam a incerteza do futuro.

12.4.11

Inquietações matinais

"Uma nação não é uma empresa; não pode ser desmembrada e os seus activos disponibilizados livremente; os credores da nação preferem receber uma percentagem de algo a receber a totalidade de nada e nunca “asfixiarão” o devedor ao ponto de este ficar impedido de cumprir as suas obrigações.
A reestruturação de dívida soberana é um dos elementos que caracteriza a dívida; Portugal, enquanto nação autónoma, reestruturou seis vezes a dívida e, nos séc XX fizeram-no 21 países, entre os quais o Brasil.
A reestruturação da dívida – nos próximos meses – é uma operação de responsabilidade do próximo Governo e implica a apresentação de um plano de como e quando iremos pagar as nossas obrigações. Porque é uma operação da responsabilidade de todos os portugueses, o IDP alerta que deve ser partilhada por todos. Democracia, crescimento e equidade só serão possíveis simultaneamente com um regime cujas soluções estejam à altura da nossa história e da nossa cultura."


Instituto da Democracia Portuguesa

11.4.11

Deamblogações nocturnas

"Eu queria que fosses uma amante mas ao mesmo tempo uma enfermeira, alguém que tomasse as minhas dores e me pudesse serenar quando sentisse o abandono a crescer dentro de mim, uma pessoa disponível mesmo que eu não pedisse nada.
Foste a única a falar:
- Precisamos deixar de pensar que temos de tomar conta um do outro..."

Daniel Sampaio, memórias do futuro, narrativa de uma família

7.4.11

Deamblogações matinais



Momentos antes do primeiro ministro fazer uma declaração ao país no momento financeiro mais grave dos últimos 150 anos, mostra-se preocupado com as câmaras e a sua fotogenia. É sintomático do calibre de quem nos governa... Não consigo dizer mais.

6.4.11

Inquietações vespertinas

"O ministro dos Assuntos Parlamentares é o segundo socialista a admitir o recurso à ajuda externa. Jorge Lacão aproveitou a sessão da última reunião plenária da legislatura no Parlamento para o dizer. Preto no branco."
Está feito. Vem aí a ajuda externa. É oficial. Há dias foi Teixeira dos Santos que entreabriu a porta ao dizer que via com muita dificuldade (sic) Portugal fugir à ajuda externa. Hoje isto. Amanhã torna-se oficial.
A miséria é que ninguém - o primeiro ministro à cabeça - vai assumir a inevitabilidade do facto e, pelo contrário, venderão a ideia de que o fazem por motivos patrióticos e porque a oposição foi irresponsável em toda a linha.
Uma tristeza. Isto, sim, é chicana política.

Inquietações matinais

"buraco", "fim da linha", "abismo", "irresponsabilidade política", "irresponsabilidade criminal", "tonteria", "teimosia", "bancarrota", "depressão", "recessão", "pobreza", "calamidade", "incumprimento", "défice excessivo", "mudar de vida", "fim dos empréstimos", "rating", "agências de notação financeira", "empréstimo intercalar", "agonia", "queda no real".
São tudo palavras ouvidas vezes sem conta nos últimos tempos. São tudo palavras próprias do contexto em que vivemos. São tudo palavras que deveriam fazer-nos reflectir seriamente e deitar mãos à obra. Pouco há de pior do que esconder a realidade. O primeiro ministro é o primeiro responsável por este estado de coisas. O ministro das Finanças é o segundo. Mas há mais.

5.4.11

Deamblogações matinais

"Ontem houve duas entrevistas na TV. Numa, a verdade; na outra, a fantasia.
(...)
Santos Ferreira, na TVI, deu em dez minutos um banho de realidade a Portugal. José Sócrates, na RTP, deu uma hora de banhada. O primeiro-ministro descolou da realidade, zarpou para dentro de um cubo caleidoscópico onde só ecoa a sua voz. Vê-se e dá pena. Pena de nós.
 (...)
Adiar o pedido de empréstimo é mergulhar o País na falta de dinheiro, salários em atraso, no medo das poupanças, na bancarrota, no incumprimento. Isso só acontecerá se formos governados por eunucos da política, habitantes da negação patológica. Até há dez dias, Sócrates era um resistente; agora é um desistente. Se não vê a realidade, será preciso interná-lo e fazer o que fizeram a Salazar, fingir que governa."
Pedro Santos Guerreiro, in Jornal de Negócios

3.4.11

Deamblogações vespertinas

«Já há 60 ou 70 anos que os jovens não lêem. Lembre-se de que os jovens já não lêem livros, lêem sms, livros de BD, resumos no Kindle: o Hamlet em 25 palavras, o Lear em 50 palavras. Os jovens estão impacientes, estão zangados, muito zangados com uma civilização, uma sociedade, que não lhes está a dar a esperança socioeconómica de que necessitam. Para ler, ler seriamente, tem de haver determinadas condições. (...) Para ler seriamente é preciso silêncio. Não ponha música, tire a rádio e a televisão do quarto. Tem de saber viver, e conviver, com o silêncio. (Cada vez menos jovens querem viver com o silêncio. Na realidade, têm-lhe medo. O silêncio tornou-se, de resto, muito caro. (...) Tem de estar preparado para - e não riam de mim - saber passagens de cor. Aquilo que amamos devemo-lo saber de cor. Não é por acaso que «coração» em latim é «cor». (...) precisa de ter alguma privacidade. Esta última condição é tremenda, provavelmente a mais difícil, em especial para os jovens de hoje. Actualmente, a privacidade é o inimigo n.º 1 de todo o jovem. Não só se confessa tudo a toda a gente, como é imperativo que o façamos imediatamente. Ninguém guarda a experiência, qualquer quer ela seja, só para si. (...)»
George Steiner, em entrevista na Ler n.º 100.

1.4.11

The end

  
Madison Square Garden, 2/4/11

Deamblogações matinais II

O discurso do Governo e do PS mudou oficialmente. Desde ontem, a questão já não é o problema da vinda do apoio europeu, mas sim o facto de um Governo de gestão não ter poderes para o pedir.
É repudiante ver esta interminável perfídia por parte daqueles que nos governam. Mentem descaradamente, fazem-nos de parvos, julgando que quem os ouve, primeiro, não percebe o que dizem e, segundo, já se esqueceu do que disseram dias atrás.
Até há dois dias atrás, o primeiro-ministro insistia no discurso do "orgulhosamente sós", afirmando que o Governo tudo iria fazer para evitar a vinda do FEE. Ontem, o azimute mudou (em coro, como é da praxe) e a cantilena passou a ser a de que o Governo não tem poder para chamar o FEE. Como se o Governo sempre o quisesse ter feito e fosse agora por uma questão meramente técnica que não o pudesse.
Quem viu a entrevista do ministro das Finanças ontem à TVI24 - e eu não consegui vê-la toda de tão revoltado que estava - percebeu que Portugal está neste momento em absoluta e total roda livre. Ninguém no Governo se importa, ninguém faz nada, ninguém assume as suas responsabilidades. Estes senhores deviam ser responsabilizados, não apenas politicamente, mas criminalmente. Ao faltarem ao país estão a hipotecar anos preciosos de crescimento e desenvolvimento. Somos um país genericamente fraco, mas merecíamos melhor, muito melhor, do que isto.

Deamblogações matinais

"(...) o governo minoritário do Canadá caiu depois da aprovação de uma moção de censura na mesma semana que o primeiro-ministro português se demitiu. O Canadá não está no abismo económico em que está Portugal, mas terá eleições a 2 de Maio. Portugal um mês mais tarde. São umas regras constitucionais absurdas, feitas por quem não entende o custo económico e social da incerteza política ao longo de 55 dias, que apenas servem os interesses políticos instalados e que ninguém quer mudar de uma vez por todas.
 (...)
O Presidente da República teria que ter uma coragem política e um sentido de responsabilidade que obviamente rejeita com a sua interpretação absolutamente limitada dos poderes presidenciais."

Nuno Garoupa, aqui, de leitura absolutamente obrigatória.