23.12.10
Inquietações matinais
"A luz vai custar mais, os barcos que atravessam o Tejo vão custar mais, a água vai custar mais, as portagens vão custar mais, os comboios e os autocarros vão custar mais, a gasolina e o gasóleo vão custar mais, o gás vai custar mais, a vida mais comum e quotidiana vai custar mais. Haverá um vidro que vai continuar partido numa janela, uma lâmpada fundida num candeeiro que se deixou de utilizar, um telemóvel sem serviço, o condomínio mais um ano por pagar, um farol do carro por arranjar, um jornal que se deixou de comprar, um tapete estragado que continuará estragado, uma camisola gasta que se usa puída, uns sapatos velhos de mais, numa vida cansada de mais. Decisões muito complicadas vão ter que ser tomadas em meados de 2011 por muitas famílias: saber se continua a haver dinheiro para pagar a prestação da casa, as dívidas do cartão de crédito, o transporte para a escola, as propinas do filho ou da filha, os medicamentos mensais, as contas a que se reduziu a correspondência, os impostos. E podia continuar indefinidamente, porque há mil e uma atitudes que estão envolvidas nesta queda, a vida toda está envolvida. Estas enumerações são profundamente aborrecidas? São, poucas coisas são mais aborrecidas do que a pobreza. Nada nela brilha."
JPP, in Abrupto
