9.9.10
Deamblogações vespertinas
Na rua, sua casa, na rua-casa, o sem-abrigo de auscultadores nos ouvidos, talvez deixados indigentemente no chão por alguém que já não os queria, escarra com violência para o chão. Fá-lo três, quatro vezes com cada vez mais aparente rancor. Aquele sem-abrigo que eu conheço bem não troca uma única palavra há anos com quem quer que seja. Sempre me perguntei como fará para sobreviver num mundo cada vez mais de palavras e menos de gestos e expressões. Olho para ele enquanto escarra e imagino a sua suprema irritação com o mundo (?). Aquele acto é infinitamente mais nobre do que o do tipo bem-posto que vai no seu carro e que abre a janela para deitar fora a sua gosma nojenta. Aquele acto é a força da única expressão que aquele homem conhece para demonstrar um estado de alma. Não se lhe pode levar a mal. É um grito da alma que só nos dói de tão pungente que é.