
Com Alcochete vamos assistir a mais do mesmo: o Governo fará sombra sobre as opções que tomar, numa tentativa de compensar aqueles que perderam com a opção tomada. Não se saberá as verdadeiras razões dos prazos, das empreitadas, das derrapagens, de uma míriade de decisões que têm que ser tomadas no âmbito de um processo desta envergadura. Assim como nunca se saberá o que foi feito dos milhões (serão dezenas, centenas, milhares?) de euros que ficaram pelo caminho: terão sido verdadeiramente desperdiçados? Serviram para calar muita ou pouca gente?
O que acabou de acontecer é um case study de interesse nacional: o Governo (e não apenas este, mas também o do PSD) deu há muitos anos como inquestionável a opção OTA. Desconheço o que esteve por trás, mas assim foi. Sem verdadeiramente se estudarem alternativas credíveis (o estudo mais profundo (?) terá sido o de Rio Frio...). Como tal, gerou-se um consenso - que se viu agora ter sido tudo menos consensual - no sentido de considerar a OTA como A opção. Ora, porque uns quantos talibãs se lembraram de apresentar um estudo preliminar que apontava noutra direcção, tendo-se começado a levantar vozes que o apoiavam, o Governo não teve outra alternativa que não a de ir a jogo (repare-se que não foi por convicção ou sem reserva mental: foi pura e simplesmente para calar os que se manifestavam contra a OTA e para os enganar dizendo-lhes que o próprio Governo era aberto a outras soluções; mas é evidente que não estava nada para aí virado nem verdadeiramente acreditava que pudesse sair um resultado favorável do estudo Alcochete). Mas o impensável acabou mesmo por acontecer: o tão propalado LNEC - entidade que, infelizmente agora para o Governo, este elevou ao estatuto de semi-deus - deu razão àqueles que defendiam Alcochete em detrimento da OTA.
Grande problema, terá pensado Sócrates. Como sair desta: insistir na OTA e com isso virar de vez a opinião contra o Governo, podendo, inclusive, comprometer as próximas eleições? Ou, em vez disso, alinhar com as novas conclusões, adoptando Alcochete e, em vez de fazer um mea culpa, falar arrogantemente como se nada de relevante se tivesse passado nos últimos tempos? Como se não houvesse ministros das obras públicas, da economia, primeiros-ministros, etc. que tivessem caucionado a OTA como única opção credível e aquela que, a todos os títulos, mais defendia os interesses nacionais?
A resposta está à vista. Mais uma vez, o primeiro-ministro envergonha este país, assim como o ministro das obras públicas envergonha a classe política. Ei-lo ao lado do seu chefe, com ar abatido, a tentar dar um ar de normalidade ao que de normal nada tem.
E nós? Pois, como é óbvio, a ouvir e a calar. Naturalmente. Como se faz em qualquer país democrático e bem comportado.
Até quando?