
José Sócrates apareceu ontem nas notícias a dizer que, apesar de ainda não ter começado, a cimeira UE/África já era um sucesso.
Não me parece.
É evidente que ao presidente em exercício da UE interessa (sobre)valorizar a cimeira que começa amanhã, muito por causa do incidente causado por Gordon Brown com a sua não vinda. E é fácil compreender porquê. O RU é um dos países com história no continente africano, potência colonizadora, que deixou marcas fundas em alguns dos seus países. É evidente que não é de todo indiferente que o RU não se faça representar ao mais alto nível em Lisboa.
Para além disso, uma cimeira UE/África é desigual em termos de vontades, interesses e motivações. Se para a UE existe uma legítima ambição de estreitar relações, espalhar os direitos humanos e daí retirar consequências económicas, ou seja, se para a UE é sua vontade aliar a diplomacia económica à dos direitos humanos, democracia, etc., para os países africanos o que interessa é, exclusivamente, a entrada de capitais estrangeiros. Estão-se nas tintas para os direitos humanos, regimes democráticos e afins: o que querem é investimento que lhes permita a entrada de dinheiro.
Aliás, a vinda de Mugabe demonstra isso mesmo. Mas não é só Mugabe, apesar de a imprensa portuguesa parecer focada nele como se fosse o único autocrata africano que se enche à custa da exploração de um povo e que comete ou manda cometer genocídios de vez em quando. O Público mostrava há dias um quadro em que vinham referidos os líderes de alguns desses países, demonstrando que existe bom e mau. Muito mau.
Daí que os interesses de ambos os blocos sejam profundamente divergentes. Ora, se assim é, a cimeira não pode ser um sucesso antes de ter começado. Nem sequer se deve falar em sucesso, sob pena de o resultado parecer bem pior do que ameaça ser. Já referi que a não vinda de Gordon Brown é uma demonstração de coragem política como se vê pouco no dias de hoje. Confesso que não consigo perceber quais os resultados. De toda a maneira, considero bastante mais cautelosa a posição que o nosso MNE tem tido do que a de Sócrates. Este, na ânsia de passar sempre uma imagem de vitória e sucesso, arrisca-se a ter que conviver com um enorme fracasso, muito potenciado pelos seus exageros prévios.