
A Madredeus chegou ao fim. Pelo menos assim se espera, depois da Teresa Salgueiro ter anunciado o seu abandono.
O Pedro Ayres Magalhães diz agora que "não é muito importante continuar sem a Teresa" (sic).
A história da Madredeus é singular na história recente da música portuguesa, mas sempre achei que teria um prazo de vida, embora não tenha, como é óbvio, nunca sido capaz de saber se esse prazo estava ou não para breve.
No entanto, uma coisa é certa: se eu era um seguidor do grupo e ouvinte mais do que atento até ao "Ainda" (já, de certa forma, menor face aos três originais anteriores), deixei, a partir daí, de me importar com o que de novo se ia passando.
Sempre que saíam notícias sobre o grupo, dava uma espreitadela sem muito interesse, na tentativa de perceber se algo de verdadeiramente novo se estava a passar. Infelizmente nunca fiquei convencido disso, tendo decidido consumar o divórcio com a saída do álbum de remisturas "Madredeus Electrónico", do meu ponto de vista, uma tentativa sempre falhada de dar um outro ponto de vista sobre o trabalho de um grupo.
Longe vão os tempos dos Dias da Madredeus, do Existir e do Espírito da Paz, este último um dos álbuns que mais me marcou enquanto pessoa e ouvinte de música.
Longe também vão os tempos dos concertos como o do Coliseu, que deu origem ao "Lisboa". Nesse tempo, o grupo tinha uma sonoridade compatível com uma (grande) proximidade do público, embora a natureza da própria música exigisse as mais das vezes que se fizesse silêncio, o que nem sempre acontecia. Esse concerto do Coliseu foi terrível nesse aspecto: o grupo a querer cantar e o público em semi-êxtase quase sem deixar. Nem por isso, no entanto, público e grupo estavam mais afastados, antes pelo contrário.
Com o passar do tempo, o grupo foi-se afastando, dando início a um caminho que o levou a uma espécie de música de laboratório, feita à medida (?) de Teresa Salgueiro, numa repetição ad nauseam de uma fórmula que, em meu entender, deixou de relacionar o público inicial.
O resto sabe-se: saíram os elementos iniciais (Gabriel Gomes e Rodrigo Leão) - que davam um cunho essencial ao grupo, marcando-o com uma sonoridade de cariz popular, no que de melhor o termo tem - entrando outros com bastante menos "patine". Novos públicos vieram e iniciou-se também a internacionalização. É evidente que a partir daí as vendas aumentaram exponencialmente, tanto em Portugal como no estrangeiro. Está, no entanto, por provar que a qualidade tenha aumentado ou, sequer, se tenha mantido. O poder do marketing e a "mainstreamização" fazem maravilhas, embora, como agora se prova, não assegurem uma vida senão eterna, pelo menos longa e saudável.
Fica a saudade de outros tempos, felizmente passível de ser revivida na música, essa sim, sempre imortal.
Sentimento
Perfeito e bom sentimento
Em Mim morou
Que amor maior nunca houve
E o fim
Chegou
Estranho favor fez o vento
Vento que o tempo esqueceu
Venham de longe me ouvir
Que eu também vou cantar alto
Ah, já vi
O meu fado
(Espírito da Paz)