
Não li, por falta de interesse, a famigerada entrevista que José Rodrigues dos Santos deu à revista Pública há algum tempo atrás. No entanto, tenho seguido com algum pormenor o desenvolvimento do caso que foi criado à volta da mesma. Já aqui referi a indecência do comunicado da RTP na sequência daquela entrevista, expondo na praça pública factos que devem ficar no âmbito estritamente interno da empresa.
No entanto, isso mesmo não significa que tenha dos factos uma posição maniqueísta: do lado dos bons o jornalista e do lado dos maus a RTP.
Os argumentos que me levaram a criticar a exposição pública que a empresa deu à situação são exactamente os mesmos para a entrevista do jornalista. Qualquer empresa, assim como qualquer trabalhador da mesma, têm o direito inalienável à manutenção da privacidade da relação profissional que os une, não podendo dele dispor livremente, sem o consentimento da outra parte. Como tal, independentemente do caso concreto, não parece aceitável que JRS tenha vindo falar em tom crítico da sua entidade empregadora, mesmo que se reportasse ao passado, concretamente à nomeação alegadamente ilegítima de uma jornalista para correspondente residente em Madrid. Existe um princípio de lealdade institucional que deve unir empregador e trabalhador e que impede que qualquer dos dois venha falar dos problemas que afectam a respectiva relação laboral, com isso afectando a imagem do outro.
Só isso mereceria, a meu ver, uma reacção disciplinar por parte da RTP. Desconheço se foi isso que aconteceu e se, para além de tal facto, existirá ou não matéria de âmbito disciplinar relacionado com o contéudo da entrevista. Em todo o caso, pouco me interessa.