Vi ontem no Lux a antestreia do filme "shut up and play the hits/ one night only" que retrata o último concerto dos LCD soundsystem no Madison Square Garden, em 2011. A banda acabou porque James Murphy decidiu acabar, mesmo estando a pouco do auge do reconhecimento público. Mas é precisamente esta a questão que fica no ar depois de se ver o filme (e, aliás, ele próprio se questiona sobre isto): o abandono - se é que de abandono se pode ou deve falar - de um projecto extraordinário e com indiscutível qualidade musical, que rompeu e inovou em termos sonoros, é compreensível numa altura em que todos quase sem excepção pretendem exactamente o contrário, i.e., a fama e o reconhecimento a qualquer preço independentemente da qualidade?
O que é engraçado é que existe, de facto, tensão (mesmo para o próprio James Murphy) entre o que ele quis (que foi o fim da banda) e as dúvidas que tem sobre se isso não será afinal um acto de cobardia e medo. Afinal, querer uma vida normal, ter família e querer continuar a apanhar o comboio e o metro como um anónimo pode muito bem ser uma opção de felicidade inteiramente compreensível e defensável mas dura de se tomar nos dias que correm. O que sucede é que essa escolha parece não ter cabimento actualmente, em que a histeria por 15mn de fama ultrapassa todos os cânones do aceitável.
Tive a sorte de ver o concerto inteiro algumas horas depois de acontecer porque o apanhei no Vimeo, tendo ficado de acesso interdito muito pouco tempo depois. O que vi, para além de um espectáculo muito bom, foi o fim celebrado, a chegada do tempo de virar a página, feito com uma certa tristeza serena de quem tem clarividência de ver o que quer da vida. E mesmo que não saiba exactamente o que quer (como Murphy refere no filme/ documentário), sabe o que não quer. E isso é o primeiro e decisivo passo para saber o que quer.