O Governo, através da Direcção-Geral de Saúde, veio fazer uma série de recomendações "para que os portugueses possam enfrentar o novo ano com saúde" (é assim que a notícia vem escrita em vários jornais). Tais recomendações centram-se na valorização de alguns alimentos como essenciais, sendo eles "leite, hortículas, água, pão, leguminosas (feijão, grão, ervilhas)". Estas declarações surgem depois de, há alguns dias, o secretário de Estado da saúde ter dito que os portugueses têm a obrigação de prevenir as doenças para garantir a "sustentabilidade do sistema nacional de saúde".
Eu não tenho rigorosamente nada contra uma alimentação saudável, aliás faço por isso na medida do que me é possível, não apenas em termos de disponibilidade como de vontade, mas confesso que tudo isto me faz alguma confusão, sobretudo dado o facto de estarmos em crise. É que ou muito me engano ou não me lembro de este Governo ou qualquer outro ter feito semelhantes declarações. E devia-o porque a saúde pública é um bem colectivo que traz benefício para todos.
O que me choca aqui é que, à boleia da saúde, o Governo vem dar pistas para, simultaneamente, se poupar nos gastos públicos (declarações do secretário de Estado) e para as famílias pouparem. Ora, eu que sou por princípio contrário a que o Estado se imiscua na vida privada das pessoas, confesso que isto me incomoda um bocadinho porque me parece brutalmente hipócrita e cínico. Em primeiro lugar, o Governo, ou melhor dito, os Governos, deviam todos eles ter pugnado por uma alimentação saudável, com isso contribuindo-se para uma redução das despesas de saúde. Mas essa redução seria uma consequência dos bons hábitos e não a razão dos mesmos como agora aparece. Em segundo lugar, a coisa de ter um quadro dirigente da Administração Pública a dizer-me quais os alimentos, ao mesmo tempo saudáveis e baratos, que devo consumir não me agrada e, pelo contrário, faz-me pensar em países pobres e de economia centralizada em que o Estado paternalista aconselha os seus cidadãos nas escolhas do seu dia-a-dia. Dipenso francamente ouvir dizer que um copo de leite é "muito barato e dá mais de 25% daquilo que precisamos por dia de cálcio, vitamina D e fósforo", por muito bem intencionado que esteja o director do programa de Alimentação Saudável da DGS.
Eu acho que isto está tudo invertido: confundem-se boas ideias e intenções com justificações menos boas para se atingir o que verdadeiramente ao Governo apenas interessa que é a redução do défice. Pelo meio, tenta-se tranvestir essa intenção de uma preocupação genuína pela saúde dos portugueses em tempos de crise, do tipo "vá, vejam bem que o pai Estado se preocupa com todos os filhos cidadãos e até lhes dá dicas de como comer bem e barato em período de vacas magras".
Tudo isto me choca e considero dispensável e, já agora, evitável num país que deveria ser considerado minimamente moderno e em que o Estado não dirige a vida dos seus cidadãos.