O Lobo das Estepes possuía então duas naturezas: uma humana e outra lupina; era este o seu destino, e pode bem ser que tal destino até não fosse deveras raro e singular. (...) No caso de Harry (...) o ser humano e o lobo não conviviam lado a lado, e menos ainda se entreajudavam; pelo contrário, eram inimigos mortais e digladiavam-se de modo permanente; o sentido da existência de cada um deles era apenas o de ser insuportável para o outro. Quando dois seres partilham o mesmo sangue e a mesma alma e são inimigos mortais, a vida que daí resulta é ruim. (...)
No caso do Lobo das Estepes, as coisas eram de molde que, de acordo com o que o seu sentimento lhe ditava, ora vivia como um lobo, ora como humano, a exemplo do que acontece com todos os seres mistos, mas que, no entanto, quando era lobo o ser humano que nele havia estava sempre à espreita, sempre a observar, a julgar, a sentenciar - e nas alturas em que era humano, o lobo fazia precisamente o mesmo. Por exemplo, quando a Harry, enquanto ser humano, ocorria uma ideia bela, quando experimentava uma sensação sublime e delicada ou praticava aquilo que se chama uma boa acção, então o lobo arreganhava os dentes e ria-se e mostrava-lhe, com sangrento sarcasmo, como toda essa preciosa representação se afigurava ridícula aos olhos de um animal das estepes, um lobo que bem no fundo do seu coração sabia perfeitamente aquilo que mais lhe agradava: trotar solitário pelas estepes fora, de vez em quando tragar algum sangue ou perseguir uma loba. Então, visto da perspectiva do lobo, qualquer acção humana se tornava terrivelmente esquisita e constrangedora, disparatada e fútil. Contudo, era exactamente igual quando Harry se sentia e comportava como lobo, quando mostrava os dentes a outros, quando sentia ódio e considerava inimigos mortais todos os demais seres humanos e os seus comportamentos e os costumes falsos e degenerados. Nessas alturas, o seu lado humano ficava à espreita, a observar o lobo, considerando-o animalesco e feroz, envenenando e estragando-lhe assim todo o regozijo que experimentava naquela sua simples, sã e selvagem existência de lobo.
O Lobo das Estepes, Hermann Hesse