20.11.13

Deamblogações vespertinas



Assumo e reconheço: dantes não gostava do Ronaldo. Não gostava da pinta dele, do novo-riquismo que representa e da idolatria a que se presta por parte dos milhões e milhões de pessoas (sobretudo jovens, essa maltosa complicada dos dias de hoje) que passaram a usar boné mal posto e com a pala meio de lado, brincos de brilhantes, cabelo com gel, terços ao pescoço e óculos dourados. No entanto, sempre gostei de o ver jogar, desde os tempos de Alvalade, passando por todos os clubes em que esteve.
Acho que o Ronaldo não é nem nunca será consensual e que aquilo que eu senti durante muito tempo, e que me levou a muitas discussões com amigos e conhecidos, é também sentido por outros milhões de pessoas, sobretudo estrangeiros, que aliam essa irritação pela maneira dele ser à genialidade futebolística que, normalmente, semeia miséria nas suas próprias selecções ou equipas preferidas.
Resta-me a certeza de que o que eu não gostava no Ronaldo nada ter que ver com qualquer eventual inveja que pudesse ter por ele ganhar não sei quantos milhares de euros por hora x 24h x 7 dias por semana x 52 semanas por ano x vários (espero que muitos) anos. Espero, sinceramente, que ganhe o que conseguir e, de preferência, vá também espalhando alguma bondade por aí junto de quem mais precisa.
Mas, ao fim de vários anos a bater na mesma tecla, tenho a dizer que mudei de opinião. Passei a gostar do Ronaldo. E não se trata do que ele fez ontem (e noutros tantos ontens que já houve). Trata-se do que ele faz, mas sobretudo do que ele diz e como diz. É um tipo muito acima da média. O Figo sempre foi um homem de negócios, também muito acima da média, mas desde cedo se percebeu que não passava cartão a ninguém e não se comprometia muito porque ninguém que faça dos negócios a sua vida pode assegurar que o dia de amanhã é assim ou assado. Mas com o Ronaldo não é isso. Ele está muitos furos acima do Figo, quer em termos de reconhecimento público (o Ronaldo tem uma escala absolutamente global, o que nunca se passou com o Figo que não era conhecido em algumas partes do mundo), quer em termos de dinheiro ganho. Por isso, a questão do Ronaldo não é de massa ou de estrelato. É de fibra (e aí sim, há semelhanças com o Figo; toda a gente se lembra daquele golo que marcou contra a Inglaterra e que foi capaz de arrancar os mortos da tumba de tantas ganas que teve). O Ronaldo tem fibra que nunca mais acaba. E classe. Também tem classe para dar e vender.
Hoje de manhã, mesmo sem perceber o que lia, passei os olhos por alguns jornais suecos e deu para ver que lhes está a custar engolir o que andaram a dizer. Assim como a Pepsi que já veio pedir desculpas. E o tonto do Blatter que publicou um twit a elogiar a prestação de ontem do nosso jogador (como se assim se desculpasse do que havia dito). E a FIFA que já veio prorrogar o prazo para a eleição do melhor jogador do mundo (o que é uma falta completa de vergonha e a prova de que isto é uma batotice e um ninho de víboras pegados).
E o que é que a tudo isto diz o Ronaldo? Nada. Que o que tem a dizer diz dentro de campo. Mesmo que isso lhe custe, porque afinal de contas a fraqueza humana pedia, pelo menos, tantas respostas quantas as provocações que lhe foram feitas. Mas não.
É assim mesmo, pá. Gosto de ti, da tua fibra e da tua classe. Deixa-os falar à vontade. No fim, mostras quem manda. E quem está e sempre tem estado presente quando mais se precisa.
Gosto mesmo dele. Admito isso com enorme alegria.