27.2.13

Deamblogações matinais

" 1. Miséria portuguesa. Não falo do pensamento que vai na cabeça de cada cidadão (coisa felizmente ainda não redutível a manchetes televisivas ou polegares do Facebook). Falo, antes de tudo o mais, da miséria da esquerda institucional que, pela sua concordância cobarde ou pelo seu silêncio cúmplice, assiste, entre o regozijo brejeiro e a inanidade de pensamento, ao assassinato metódico de um dos mais genuínos símbolos da história democrática portuguesa: Grândola, Vila Morena, cântico de liberdade e libertação, passou a ser miseravelmente aplicado como peça de censura ao direito de expressão dos governantes (nalguns casos colocando-nos, ou tentando colocar-nos, do lado da pornografia ideológica: como se dizia num noticiário televisivo, eram “20 pessoas” a protestar, cantando...)
2. Perante tal miséria, é penoso ter que acrescentar que Miguel Relvas não é, de facto, um modelo de génio político, passe o eufemismo. Infelizmente para todos nós, o que está em jogo não é o “valor” seja de quem for – o que está em jogo é esta estupidez triunfante, sustentada pelas redes “sociais” (quem lhes concedeu o privilégio ditatorial de “organizar” o quotidiano da política?) e também alguns modelos de “informação” televisiva que só sabem celebrar a crispação (desse mesmo quotidiano). Na prática, o símbolo de abertura e pluralidade tornou-se uma arma de silenciamento: José Afonso cantou a proliferação das vozes; agora, aplicam-se as palavras de José Afonso para, literalmente, criar ruído e massacrar a nitidez de qualquer voz. (...)"

João Lopes in sound & vision