"Nunca mais quis saber desse homem, julgo que se negou a prestar declarações, que desde o primeiro momento se fechou no seu mutismo e nele continua (...). Matou o Miguel como podia ter matado o Pablo ou qualquer morador da zona com quem tivesse deparado. Suponho que também ele precisava de inimigos, de alguém a quem assacar a culpa da sua desgraça. É o que, por seu lado, toda a gente faz, tanto as classes baixas como as médias e as altas e os desclassificados: ninguém aceita já que as coisas acontecem às vezes sem que haja um culpado, ou que existe a pouca sorte, ou que as pessoas se desviam e se perdem e que são elas mesmas que procuram a desventura ou a ruína. - "Tu mesma forjaste a tua ventura", pensei eu de memória, citando Cervantes, cujas palavras, com efeito, já não se levam em conta. - Não, não sou capaz de me enfurecer contra quem o matou sem razão, contra quem o marcou por acaso, digamos, aí é que está o mal; contra um louco, contra um transtornado que na realidade não lhe queria mal a ele porque era ele e que nem sequer lhe conhecia o nome, mas que o viu como a incarnação do seu infortúnio ou o causador da sua situação amarga. (...) digo-lhes que não desejo explicações mais ou menos hipotéticas nem investigações às apalpadelas, que o que aconteceu é tão grave que fico na mesma com o porquê, sobretudo sendo um porquê incompreensível, que não existe nem pode existir fora daquela mente alucinada ou doente em que não tenho que penetrar.
(...) Não, odiá-lo não serve de nada, não consola nem dá forças, não me reconforta esperar que o condenem nem desejar que apodreça na prisão. Também não é caso para ter pena dele, claro, não consigo tê-la. O que lhe diga respeito é-me indiferente, nada nem ninguém me vai devolver o Miguel. (...) - A minha mente estaria ocupada noutra coisa, e não só na lamentação e na saudade. Tenho constantes saudades dele, sabes? Tenho saudades ao acordar e ao deitar e ao sonhar e todo o dia pelo meio, é como se o trouxesse sempre comigo, como se o tivesse incorporado, isto é, no meu corpo. (...) - Há gente que me diz: "Fica-te com as boas recordações e não com a últimaa, pensa no muito que se amaram, pensa em tantos momentos fantásticos que outros nem sequer conheceram." É gente bem intencionada, que não consegue entender que todas as recordações estão agora tingidas por este final triste e sangrento. Sempre que me lembro de algo de bom, no mesmo instante me aparece a imagem última, a da sua morte gratuita e cruel, tão facilmente evitável, tão parva. Sim, é o que me faz pior: tão sem culpado e tão parva. E as recordações turvam-se e tornam-se más. Na realidade já não me resta nenhuma boa. Todas se me revelam ilusórias. Todas se contaminaram."
Javier Marías, Os Enamoramentos