9.9.12

Excertos da vida em livros

""É bom termos a experiência de tudo o que queremos saber" - pensou. "Aprendi, quando criança, que os prazeres do mundo e a riqueza não são bons. Há muito que não o sabia, mas só agora o vivi. E agora sei-o, não apenas com a memória mas também com os meus olhos, com o meu coração, com o meu estômago. E ainda bem que o sei!"
Reflectiu muito tempo sobre a sua metamorfose, escutou a ave quando esta cantou de alegria. Não estava esta ave morta dentro de si, não havia sentido a sua morte? Não, outra coisa morrera dentro de si, algo que há muito que ansiava morrer. Não seria aquilo que, nos seus arrebatados anos de penitência, quisera matar? Não seria o seu Eu, pequeno, inquieto e orgulhoso, contra o qual lutara tantos anos, mas que sempre o derrotara, que regressava depois de cada morte, impedindo-lhe a alegria e causando-lhe medo? Não seria aquilo que hoje morrera, nesta floresta à beira deste adorado rio? Não seria por causa dessa morte que ele era agora como uma criança, tão cheio de confiança, tão sem medo, tão feliz? (...) Compreendia agora, e compreendia que a voz oculta tinha razão, que nenhum mestre o poderia ter libertado dela. Por isso foi obrigado a conhecer o mundo (...)."

Siddharta, Um poema indiano, Hermann Hesse