4.9.12

Excertos da vida em livros

"Falas-me do que te falta (...), é verdade que sobreviveste, mas não passas disso, um sobrevivente, dizes (...)
Quando digo que sobrevivemos a nos perder, quero dizer que estamos depois disso. É o que me dá alegria. Porque houve um tempo mudo, entre a primavera e o verão. Todas as tuas palavras encontram ressonância aqui
(...) Se não nos perdemos, porque não pensas noutra coisa que não reencontrar-me?, perguntas. Invejas as paredes do meu quarto, invejas toda a gente com quem me cruzo, até os pequenos gatos de Jerusalém que me veem passar, em passo de guerrilheira.
(...) Pedes que não me inquiete. Que, sim, cada mensagem reabre uma ferida, sem falar de todo o sal que ainda deitas por cima ao verificar o gmail 200 vezes por dia. Sem falar na melancolia e no ciúme que te paralisa quando há uma mensagem ou quando não há, quando pensas no meu sorriso, quando te lembras de mim diante de ti. Mas qual é a alternativa?, perguntas. Não queres pensar na ideia de que nos podemos afastar: Acabas a falar do Natal em Jerusalém, que terá outra espécie de recolhimento, sem a histeria dos presentes. Mas antes ainda queres fazer um jantar para o meu aniversário.
(...) Perguntas onde estou, que se passa, se podes telefonar.
(...) Não consegues antecipar a viagem, mas tens pressa de me ver, tens pressa de me ver, tens pressa de me ver.
(...) Bonne nuit ma douce. O francês é imbatível nisto. E passada uma hora escreves que não consegues dormir se eu não te enviar uma palavra.
(...) Até que me levanto de um salto, aterro ao teu lado e abraças-me como se respirássemos no último segundo. Horas no teu quarto, por tudo o que não aconteceu e por tudo por tudo o que não pode acontecer mais."

e a noite roda, Alexandra Lucas Coelho