A chegada ao deserto começa muito tempo antes, com a excitação de se acordar longe e de se tomar consciência que nesse dia se dormirá no meio das dunas.
À medida que nos aproximamos, a temperatura começa a subir. Tanto a exterior como a interior. Entre alguma dificuldade em respirar, por causa do ar ressequido, o compasso cardíaco aumenta de velocidade, o que faz subir algumas décimas de graus a temperatura do corpo.
Penúltima vila antes do Sahara e decidimos não almoçar porque tinha tudo demasiado mau aspecto. Demasiado é mesmo demasiado, sem exageros e já dando todo o desconto possível a esta gente e aos seus costumes, que, mesmo já com algum hábito de outras viagens a países árabes, não é muitas vezes fácil de entender. Bebemos um sumo de laranja bem fresco, abastecemos de várias águas e seguimos em direcção ao último vilarejo antes do Erg. Quando estamos a chegar, quase que somos interceptados por um local que nos pede para parar. Não paramos. Estamos completamente fartos de ser abordados por locais. Vejo-o, então, pelo retrovisor a correr desesperado em direcção ao que julguei ser um carro, mas que na verdade vim a descobrir pouco depois ser uma moto pequena. Chegamos e somos abordados por outro local - mais um - que nos tenta vender uma excursão às dunas. Estamos em diálogo, mas com vontade de recusar, quando chega o outro da mota, irmão de alguém a quem eu, noutra vila anterior, tinha comprado um turbante e com quem tínhamos estabelecido o compromisso de falar. Apenas falar, sem aceitarmos o negócio que nos queria propor. Honramos, assim, o compromisso e vamos falar com ele, tendo entretanto dado uma nega ao outro que se foi embora chateado. Convidou-nos então para sua casa e ofereceu-nos um chá de menta e uma salada de cebola, tomate, queijo e azeitonas. Muito boa, mas o hálito permaneceu fétido durante quase vinte horas... Ao fim de quarenta e cinco minutos, o nosso anfitrião sentou-se para conversar e começámos por tentar perceber quais eram as alternativas, visto que tínhamos um plano para cumprir nos próximos dias, embora com grande flexibilidade. Estabelecido o plano caso fechássemos o negócio, chegou a parte importante do momento: negociar o preço. Bluff do lado de lá, bluff do lado de cá. Juras de verdades não ditas, honras que se perdem com as palavras. Tem de ser. Tudo isto é parte integrante do jogo e quem joga sabe disso. Pas de problème.
Acabámos por fechar a meio entre aquilo que ele pedia e aquilo que nós estávamos dispostos a oferecer. Comme il faut e sem que ninguém se zangasse. Senão seria o caldo entornado, o que, para nós, significaria o fim daquilo que queríamos.
O guia saiu então para ir comprar os mantimentos e nós ficámos em casa dele a descansar e a tomar um banho, que era coisa que não íamos poder fazer nas próximas trinta horas. O sítio era, no mínimo, insólito: a casa marcava a fronteira entre a última vila antes do deserto (Merzouga) e o próprio deserto. Lá dentro tudo era no estuque local, uma mistura de terra, argila e palha, sem estar pintado nem ter qualquer quadro ou outro objecto decorativo. Na sala onde estávamos havia três mesas de plástico cobertas com uma toalha cada e algumas cadeiras também de plástico, mobiliário típico de jardim que ali se destinava a não sei bem o quê. Para irmos tomar banho, tivemos que atravessar parte da casa, que continuava sem qualquer decoração e com as paredes em estuque. Percebi uma sala em que diversas pessoas estavam deitadas no chão, talvez devido ao facto de ser Ramadão e a maior parte dos homens passar o dia literalmente a vegetar. Os chuveiros eram semi-improvisados e funcionavam apenas com um fio de água, mas não importava: podíamos tomar banho. Retretes, nem vê-las. Em vez disso as clássicas latrinas. A verdade é que também dava (e deu...). Depois de prontos, chegou o nosso jipe (o "quatre quatre") e lá partimos para o deserto. Eram então 17h30 e estavam cerca de 48ºC.