Tenho lido diversas opiniões publicadas de comentadores que se queixam da passividade do povo português perante a crise violenta que nos assola. Passividade sobretudo perante o Governo e as medidas que tem tomado. Passividade perante a troika e as decisões que nos impôs. Ora, considero que estas opiniões - para além de legítimas como todas as opiniões - são profundamente erradas e assentam não apenas num erro de análise, como sobretudo numa incapacidade dos próprios. Senão vejamos:
Os povos para demonstrarem o seu descontentamento não têm de andar nas ruas a incendiarem carros, partirem montras e deixarem um rasto de destruição com cockails molotov. Foi assim em várias cidades espanholas, foi assim em Londres no ano passado e, sobretudo, tem sido assim em Atenas, mas não tem de ser assim nos outros sítios. Aliás, a comparação entre Portugal e Espanha por parte de quem defende que somos demasiado passivos (e que nos inferioriza relativamente aos nossos vizinhos) é, no mínimo, estranha e em nada abona a favor de quem a faz. Volto a insistir que o princípio segundo o qual quem parte e grita mais tem mais razão e legitimidade do que quem parte e grita menos (ou, por maioria de razão, do que quem não parte nem grita) está por demonstrar em absoluto. Não acho que os gregos ou os espanhóis tenham mais coragem ou razão do que nós, nem acho que demonstrem ser um "melhor povo" e mais interessados nos respectivos países do que nós. Isto em primeiro lugar.
Em segundo, acho que quem faz esta análise tem uma incapacidade própria e alguma arrogância à mistura. Incapacidade, desde logo porque também não os vejo manifestar-se aos berros e a enfrentar as cargas policiais com os pastores alemães a espumarem para arrancarem braços. Pelo contrário, estão sentados a escrever, que é, diga-se, algo mais pacífico (e sensato) e nem por isso menos importante. Por outro lado, quem assim pensa parece que está a vender um exemplo e que esse exemplo, seja através da escrita, seja através de manifestações, tem de ser seguido por todos. Não concordo com isso, nem acho que quem não se manifesta de todo esteja, por natureza, menos insatisfeito do que quem passa a vida a gritar e a manifestar-se.
Esta forma de pensar leva necessariamente a uma desvalorização do voto e das eleições que é, tanto quanto sei, a forma democrática de escolher. É claro que isto não invalida as manifestações nem de todas as outras formas de protesto, desde que pacífico. Mas também não convém exacerbá-las, incitando o povo a uma espécie de revolta. Não é pelo facto de as pessoas andarem caladas que andam conformadas e resignadas e considero que esta conclusão é muitíssimo tendenciosa e, repito, arrogante.
Já agora, para aqueles comentadores que assim pensam, deixo a seguinte nota: há uns tempos atrás li no FT um estudo muito interessante que dizia que se está a assistir a uma desmobilização geral das sociedades ocidentais na luta pelos seus direitos pelo facto de as pessoas terem acesso a meios de comunicação alternativos, como sejam as redes sociais. Estas últimas, na imaginação das pessoas, substituiria a ida para a rua e o protesto alto e bom som. A ter-se por boa esta tese, não será precisamente isto que acontece com os comentadores que reclamam uma intervenção mais forte na rua? Mas alguém já os viu lá?