7.6.12
Deamblogações nocturnas
A Grécia está um desastre e toda a gente, mas mesmo toda, já percebeu que terá de abandonar o Euro. Pergunto: quando é que haverá coragem para o admitir? Ou, sem que se saiba publicamente, já decorrem conversações nesse sentido? Talvez.
Em Espanha vive-se o que se viveu em Portugal, embora com outro glamour e atenção por parte dos outros países. A sensação, aliás óbvia, que Espanha é "demasiado grande" para cair não se viveu por cá, pelo que a energia externa que Espanha motiva em seu redor é muitíssimo mais potente do que no caso português. Ainda assim, não deixa de se passa lá o que se passou cá. A escala é que é diferente.
A Alemanha propõe agora uma Europa a duas velocidades, assumindo e formalizando uma divisão Norte/ Sul. Só me pergunto em que clube ficará a Itália, país fundador da CEE e uma das maiores economias mundiais, e mesmo a Espanha. Será que haverá coragem para os pôr a par dos restantes velhacos-preguiçosos-incumpridores, i.e., Grécia e Portugal? E, já agora, a Irlanda, onde ficará nesta divisão?
França viu as yields descerem ao nível mais baixo dos últimos 13 anos, confirmando que, por ora, a eleição de Hollande não apenas não motivou descrenças, como aumentou mesmo a confiança. Do que tenho curiosidade é saber em que é que os "mercados" confiam exactamente: num presidente que faz afirmações de uma demagogia atroz, que já restabeleceu a idade da reforma nos 60 anos para grande parte dos trabalhadores, que diz que quer contratar 60 mil professores, que vai taxar em 75% as grandes fortunas, que apostou na paridade absoluta entre sexos no seu governo sem que se saiba que os que dele fazem parte são ou não competentes, que afirmou (embora já tenha recuado) que iria sair até final de 2012 do Afganistão com isso ignorando o que França havia assumido como um compromisso perante os seus aliados internacionais, que trouxe a "agenda do crescimento" como se este brotasse súbita e repentinamente como cogumelos selvagens? É, afinal, nisto que os "mercados" acreditam e a que dão crédito? Notável...
Enfim, estranho mundo e estranha Europa estes.
Continuo sem ver um rumo definido, ainda que o mesmo vá sofrendo correcções ao longo do tempo, como seria normal que acontecesse. Aqui, nem há correcções nem rumo. Bolina-se à vista (grossa) como se o mapa se tivesse perdido algures no porão e fosse uma vergonha assumi-lo perante os passageiros do navio. Admito que seja algo embaraçoso, mas há alturas na vida (não serão todas?...) em que o toiro tem de ser enfrentado pelas pontas. A avestruz não chegou, de facto, a ver o comboio que a ia passar a ferro, mas não ficou por cá para contar a história.