
O que se passou ontem no Jamor foi mau de mais para ser verdade. Não falo em termos desportivos, embora no meu caso seja verdade que também nesse aspecto nada correu bem. Mas a verdade é que, anti-jogo à parte (e não foi por causa do escandaloso anti-jogo da Académica que o Sporting perdeu), o Sporting esteve muito mal. Achava, talvez, que ia ganhar facilmente o jogo, pois acabou por perdê-lo.
Mas a vergonha passou-se sobretudo fora do relvado, com tudo o que gira à volta da final da Taça. Comecemos pelo princípio: para conseguir arranjar bilhete para o jogo é preciso conhecer as pessoas certas. E "certas" não se julgue que são necessariamente as mais importantes nos mais diversos domínios. Não. Para se conseguir um bilhete para a final da Taça é preciso conhecer quem, de forma pouco clara e transparente, gere os bilhetes disponibilizados pela Federação. Pode ter-se sorte ou azar. Eu desta vez tive sorte. Muita gente que conheço teve azar. Para a próxima há mais com papéis provavelmente invertidos. Há, no entanto, quem tenha sempre “sorte”, chamemos-lhe assim.
Mas não se ficou por aqui a vergonha absoluta no que toca à organização deste jogo. Ontem, as gentes iluminadas que trataram dessa organização decidiram fazer com que as entradas correspondessem às zonas dos bilhetes, o que é inédito em finais da Taça de Portugal. Passo a explicar: o Jamor é provavelmente o estádio mais aberto que existe. Tem duas grandes entradas, a porta da maratona e a da tribuna, no lado oposto e, para além disso, como não tem bancada em todo o estádio e tem uma zona de circulação a toda a volta, anda-se muito bem de um lado para o outro. Ou seja, sempre foi possível entrar-se por qualquer das duas portas independentemente do lugar correspondente ao bilhete, sendo que lá dentro as pessoas se orientavam sem grande dificuldade. Ora, este ano uma das poucas coisas que funcionava bem em termos logísticos (já que o resto é péssimo: acessos, zonas de estacionamento, polícia insuficiente, revistas inexistentes, etc., etc.) foi pura e simplesmente suprimida sem que houvesse qualquer lógica para tal: se alguém tivesse o seu lugar na bancada central, por exemplo, não podia entrar pela porta da maratona, o mesmo se passando inversamente. Isto deu como resultado que, além da pressão das enchentes junto dos cordões da polícia, houvesse milhares de pessoas, muitas delas com crianças pequenas e de colo, a andar de um lado para o outro para poderem entrar no estádio. Mas é pior do que parece. Como se sabe, o estádio Nacional fica no vale do Jamor que é uma zona em declive acentuado, o que quer dizer que entre as duas entradas há que subir ou descer muito, consoante a direcção em que se vá. Pior ainda: a forma de ir entre uma e outra sem ser pela estrada (que é uma volta gigantesca), é por entre as árvores, numa escalada (ou descida) digna de montanhismo. A isto junte-se magotes de pessoas, muitas com excesso de álcool (porque faz parte do programa o porco no espeto a partir das 11h...), crianças ao colo de adultos irritados, tudo a discutir, e tem-se o perfeito cenário para um desastre, que felizmente não aconteceu. Mas tudo isto ainda piora. Chegava-se à porta da tribuna, depois de 45 minutos, sem sucesso, a tentar entrar por baixo, de uma escalada complicada e de uma caminhada por entre milhares de pessoas na mesma direcção e em direcção contrária, e o espectáculo era digno de se ver: duas filas enormes de cada um dos lados, com a inevitável abertura ao meio para os possuidores de acesso vip. Estou-me francamente borrifando para o acesso vip que compreendo que exista e deve, aliás, existir, mas é totalmente incompreensível que se perdessem duas horas (!) para entrar no estádio por esta porta. Não estou a exagerar. Como a sorte de uns é o azar de outros, acabei por entrar, com mais dois da minha malta, à má fila numa brecha que se abriu mesmo à frente da porta por causa de alguém que tropeçou e partiu a cabeça assim gerando uma confusão que permitiu essa entrada. Não fora isso e teria chegado no final da primeira parte, como aconteceu a muitas pessoas que estavam perto de mim.
Por fim, depois do magnífico jogo a que se assistiu, chegada a hora de ir embora... não se podia sair. Palavra de honra que não queria acreditar. A polícia e os energúmenos da empresa de segurança contratada (dois dos quais ladearam a taça durante duas horas como se alguém no seu perfeito juízo, e mesmo tendo-o perdido, a quisesse roubar), não queriam deixar passar as pessoas da bancada central, quando as outras bancadas estavam a sair pacificamente. Depois de várias tentativas, encaminhei-me para o sítio por onde tinha entrado e, após dois polícias me dizerem que não podia sair, fiz o que nunca pensei fazer: forcei a saída por entre os dois, desrespeitando em plenas barbas a ordem que me tinham dado. Se alguém pensa que vieram atrás de mim, desengane-se. A confusão era tal que a própria autoridade não tinha autoridade alguma. Logo que passei por eles, parei, olhei para trás e disse a quem estava comigo para fazer o mesmo, o que aconteceu sem qualquer consequência. Ao fim de trinta minutos de um lado para o outro, estava finalmente a conseguir sair do estádio onde queriam reter-me por nenhum motivo plausível e racional.
Tudo isto é escandaloso, tudo é uma vergonha e demonstrativo de uma absoluta e completa incompetência na organização de um evento que tinha obrigação de ser muito diferente, mesmo naquele estádio sem condições para o receber. Os responsáveis não deviam apenas ser demitidos, mas também criminalmente processados por negligência, colocando em perigo milhares de pessoas, muitas delas crianças. Já não falo na comodidade a que qualquer espectador tem direito após pagar um lugar. Isso parece-me evidente em qualquer lugar civilizado. Afinal de contas, um jogo de futebol dirige-se, acima de tudo, a quem o vê ao vivo. Contudo, neste triste país, com estas trites gentes responsáveis por estes tristes eventos, essa comodidade não é sequer digna de constituir condição. Quem porventura ousasse invocá-la levaria uma vergastada. Afinal de contas, o Zé foi feito para sofrer. Valha a verdade, ali todos éramos Zés, sem distinções de classes ou de estatuto. Isso, ao menos, conseguiram.