28.4.12
O campo da bola ou o retrato de Portugal no seu melhor (II)
O facto de os jogadores terem o sentido do dever cumprido, não significa que durante o jogo não imitem ou tentem imitar a má escola que o futebol é, simulando faltas, sendo individualistas e fiteiros e tendo nulo ou reduzido fair-play. Não são todos nem pouco mais ou menos e, felizmente, o que predomina ainda é o contrário (diga-se, muito devido à boa acção dos treinadores), mas vê-se mais do que seria desejável. E de pequeninos. Aquele sentido de que são craques ainda por reconhecer é, muitas vezes, mais forte do que eles.
Voltando ao público, para além dos incentivos aos pequenos jogadores, alguns membros das suas famílias, desconsiderando que aquilo se passa com petizes de palmo e meio e que, digamo-lo sem rodeios, pouca ou nenhuma importância tem para além da componente didáctica evidente, passam o tempo todo a insultar a mãe do árbitro e a dizer-lhe que tem um sítio alternativo para ir em vez de ali estar (por sinal, um sítio bastante mal cheiroso). Como a aprendizagem dos mais pequenos é mimética, já vi por diversas vezes os irmãos que também assistem aos jogos, muitos deles com apenas 4 ou 5 anos, a repetir o que os pais (homens) estão a dizer, com a total indiferença das respectivas mães. Por vezes ainda fico espantado.
Houve uma vez, num campo nos arrabaldes de Lisboa, em que temi a sério que parte do público andasse à pancada, tão evidentes eram as picardias entre alguns espectadores... Enquanto isso, dois homens gravavam em fita para a posteridade o relato do jogo. Não me esquecerei tão cedo deste quadro...
Mas é por estas e por outras que se vê que as não há crianças más. Na verdade elas querem é jogar à bola e estão-se verdadeiramente nas tintas para tudo o que se passa ao redor do jogo. Como hoje mesmo ouvia alguém dizer, é difícil tornar má uma criança, mas se se insistir com afinco consegue-se. Quando um miúdo guarda-redes leva três carolos do pai no fim do jogo (e a sério) porque deixou entrar 4 ou 5 golos, por enquanto chora com ar infeliz, mas é muito expectável que venha um dia a fazer o mesmo. É triste mas é verdade.
Uma das razões porque sempre gostei de viajar foi a de ter a certeza de que vivo num microcosmos, igual sem mais nem menos a milhares de outros microcosmos. Essa sensação-certeza de não sermos nem o centro do mundo nem a verdade absoluta. Muitas das vezes julga-se que é preciso apanhar um avião para experimentar essa sensação. Não é verdade. Basta sairmos de nossas casas e ficar atentos ao que nos rodeia, basta andar meia dúzia de quilómetros e ir assistir a uns miúdos a dar pontapés na bola.