A cena repetir-se-á certamente todos os fins de semana,
embora eu só assista de vez em quando, sempre que os meus filhos têm campeonato
ou torneio de futebol. Explico.
Há alguns anos, um qualquer Governo deste nosso país decidiu
– e bem – construir o que sempre se denominou por “equipamentos sociais” em
locais problemáticos, como forma de inserção social das respectivas populações
(esta linguagem está a parecer-me demasiado sociológica). Desse modo, nasceram
um pouco como cogumelos estádios de futebol extraordinários, com relvados
sintéticos do melhor que há, dotados de balneários, bancadas e alguns até com
pistas para corrida. É, pois, nesses locais que treinam e se agregam diversas
colectividades, entre as quais clubes de futebol local (por vezes mais do que
um têm a mesma sede), uns mais conhecidos e importantes do que outros.
Existem competições nacionais, regionais e locais de
futebol, que vão desde os seis anos à idade adulta e é precisamente nestes
locais que, muitas das vezes, os olheiros dos clubes profissionais recrutam os
futuros craques.
Isto leva, necessariamente (e muito infelizmente), a que
grande parte da malta ache que tem um Cristianozinho Ronaldo em casa, qual
diamante em bruto por lapidar, faltando apenas que alguém lhe dê a devida
atenção e lhe pegue para começar o sonho de uma carreira a sério, evidentemente
com a recompensa financeira merecida em benefício do próprio e, claro está, dos
seus pais e restante família.
Dito de outro modo, jogos entre miúdos de 8, 9 ou 10 anos,
rapidamente se transformam numa algazarra que é difícil explicar a quem não
teve a grata experiência de viver um momento desses.
Explico.
Em primeiro lugar, vão ver o jogo, não apenas os pais, mas
as tias, os tios, os padrinhos e, por vezes, os avós. Como se não bastasse o
número familiar, várias vezes se fazem acompanhar de vuvuzelas ou mesmo de
buzinas, daquelas que se distinguem muito bem num estádio a sério cheio de
gente aos berros. Agora, multiplique-se isto por algumas dezenas de miúdos e
ter-se-á uma pequena noção do que estou a dizer. Mas, para além da referida
indiossincrasia deste tipo de acontecimento, há um traço muito distinto
relativamente a um qualquer outro campeonato de futebol: é que aqui os
espectadores não estão a torcer propriamente pela equipa (para a qual,
convenhamos, estão-se nas tintas ou quase), mas sim pelo seu pequeno craque
familiar. Dito isto, várias reacções são possíveis no final de um jogo ou torneio,
consoante o desfecho do mesmo. Assim: (a) a equipa ganha e o miúdo joga bem - o
melhor de dois mundos e já só falta o Barcelona dar pela coisa para o futuro
estar no papo; (b) a equipa perde e o miúdo joga bem - os outros jogadores da
equipa não jogam um charuto e o pequeno tem é de mudar de clube rapidamente
porque não está a ser devidamente aproveitado; (c) a equipa ganha e o miúdo
joga mal - foi um mau dia para o craque que tem de estar mais concentrado, mas
todos os craques têm maus dias, até o Cristiano Ronaldo (!); (d) a equipa perde
e o miúdo joga mal - azar colectivo, ao glorioso também acontecem dias destes. Como
tal, vê-se de tudo no final dos jogos. Malta a rir, malta a chorar e pais a dar
carolos a sério nos filhos porque têm o dever de jogar melhor... É triste mas é
verdade.
Por outro lado, durante os jogos, as famílias não param de
incentivar os “seus” jogadores dizendo: "Vai Edu! Segue!" ou
"Para cima dele Edu! Marca!" ou "Solta Edu! Vira!” ou, ainda, “Leva!
Leva! Leva!”. Enfim, um chinfrim que acaba por desconcentrar os Edus que lá
deviam estar para se divertirem e que, muitas das vezes, sentem uma pressão
maior do que os jogadores a sério numa final da Champions.
Por fim, o conceito também característico do “isto é a nossa
casa e vocês são uns bardamerdas (especialmente se os vossos filhos forem de
uma equipa grande como o Sporting)”. Vê-se (e sente-se) muito em clubes de
menor dimensão ou em zonas mais problemáticas. Aí, não só existe muita pressão
sobre o árbitro (mas quando eu digo muita, é mesmo muita), como os pais dos
visitantes se vêem confrontados com algumas ameaças veladas. A mim já me deram
encontrões violentos “sem querer”, já me puseram vários cigarros debaixo das
narinas ao mesmo tempo sem eu poder sair do lugar (sob pena de deixar de ver os
meus Cristianos Ronaldos), já me pressionaram contra o parapeito de uma “bancada”,
enfim, um rol imenso de compressões em honra ao facto de eu não ser “da casa”.
Tudo isto dura entre 2 e 4 horas, dependendo se há um jogo
ou mais. No final, entre mortos e feridos, lá vêm os craques, uns mais tristes
do que outros, mas sempre com o sentimento de terem o dever cumprido.
(continua)