23.4.12

O campo da bola ou o retrato de Portugal no seu melhor (I)


A cena repetir-se-á certamente todos os fins de semana, embora eu só assista de vez em quando, sempre que os meus filhos têm campeonato ou torneio de futebol. Explico.
Há alguns anos, um qualquer Governo deste nosso país decidiu – e bem – construir o que sempre se denominou por “equipamentos sociais” em locais problemáticos, como forma de inserção social das respectivas populações (esta linguagem está a parecer-me demasiado sociológica). Desse modo, nasceram um pouco como cogumelos estádios de futebol extraordinários, com relvados sintéticos do melhor que há, dotados de balneários, bancadas e alguns até com pistas para corrida. É, pois, nesses locais que treinam e se agregam diversas colectividades, entre as quais clubes de futebol local (por vezes mais do que um têm a mesma sede), uns mais conhecidos e importantes do que outros.
Existem competições nacionais, regionais e locais de futebol, que vão desde os seis anos à idade adulta e é precisamente nestes locais que, muitas das vezes, os olheiros dos clubes profissionais recrutam os futuros craques.
Isto leva, necessariamente (e muito infelizmente), a que grande parte da malta ache que tem um Cristianozinho Ronaldo em casa, qual diamante em bruto por lapidar, faltando apenas que alguém lhe dê a devida atenção e lhe pegue para começar o sonho de uma carreira a sério, evidentemente com a recompensa financeira merecida em benefício do próprio e, claro está, dos seus pais e restante família.
Dito de outro modo, jogos entre miúdos de 8, 9 ou 10 anos, rapidamente se transformam numa algazarra que é difícil explicar a quem não teve a grata experiência de viver um momento desses.
Explico.
Em primeiro lugar, vão ver o jogo, não apenas os pais, mas as tias, os tios, os padrinhos e, por vezes, os avós. Como se não bastasse o número familiar, várias vezes se fazem acompanhar de vuvuzelas ou mesmo de buzinas, daquelas que se distinguem muito bem num estádio a sério cheio de gente aos berros. Agora, multiplique-se isto por algumas dezenas de miúdos e ter-se-á uma pequena noção do que estou a dizer. Mas, para além da referida indiossincrasia deste tipo de acontecimento, há um traço muito distinto relativamente a um qualquer outro campeonato de futebol: é que aqui os espectadores não estão a torcer propriamente pela equipa (para a qual, convenhamos, estão-se nas tintas ou quase), mas sim pelo seu pequeno craque familiar. Dito isto, várias reacções são possíveis no final de um jogo ou torneio, consoante o desfecho do mesmo. Assim: (a) a equipa ganha e o miúdo joga bem - o melhor de dois mundos e já só falta o Barcelona dar pela coisa para o futuro estar no papo; (b) a equipa perde e o miúdo joga bem - os outros jogadores da equipa não jogam um charuto e o pequeno tem é de mudar de clube rapidamente porque não está a ser devidamente aproveitado; (c) a equipa ganha e o miúdo joga mal - foi um mau dia para o craque que tem de estar mais concentrado, mas todos os craques têm maus dias, até o Cristiano Ronaldo (!); (d) a equipa perde e o miúdo joga mal - azar colectivo, ao glorioso também acontecem dias destes. Como tal, vê-se de tudo no final dos jogos. Malta a rir, malta a chorar e pais a dar carolos a sério nos filhos porque têm o dever de jogar melhor... É triste mas é verdade.
Por outro lado, durante os jogos, as famílias não param de incentivar os “seus” jogadores dizendo: "Vai Edu! Segue!" ou "Para cima dele Edu! Marca!" ou "Solta Edu! Vira!” ou, ainda, “Leva! Leva! Leva!”. Enfim, um chinfrim que acaba por desconcentrar os Edus que lá deviam estar para se divertirem e que, muitas das vezes, sentem uma pressão maior do que os jogadores a sério numa final da Champions.
Por fim, o conceito também característico do “isto é a nossa casa e vocês são uns bardamerdas (especialmente se os vossos filhos forem de uma equipa grande como o Sporting)”. Vê-se (e sente-se) muito em clubes de menor dimensão ou em zonas mais problemáticas. Aí, não só existe muita pressão sobre o árbitro (mas quando eu digo muita, é mesmo muita), como os pais dos visitantes se vêem confrontados com algumas ameaças veladas. A mim já me deram encontrões violentos “sem querer”, já me puseram vários cigarros debaixo das narinas ao mesmo tempo sem eu poder sair do lugar (sob pena de deixar de ver os meus Cristianos Ronaldos), já me pressionaram contra o parapeito de uma “bancada”, enfim, um rol imenso de compressões em honra ao facto de eu não ser “da casa”.
Tudo isto dura entre 2 e 4 horas, dependendo se há um jogo ou mais. No final, entre mortos e feridos, lá vêm os craques, uns mais tristes do que outros, mas sempre com o sentimento de terem o dever cumprido.
(continua)