Eu sei que é um exemplo estafado, o da Autoeuropa. Mas não resisto: quando está quase tudo a ruir à nossa volta, quando o mercado de trabalho está a lástima que está, e a piorar, quando quem tem emprego recebe cada vez menos, eis a Autoeuropa que vai pagar 938 euros a uma larguíssima franja dos seus trabalhadores, em função dos resultados obtidos. Não foram 100% atingidos, mas segundo a notícia "apenas" 58%. Em todo o caso, não é isso que interessa. O que interessa é que, depois de um ano de trabalho, a lutar contra a maré, contra a crise, e no âmbito de um acordo de empresa bem feito que junta empregador e trabalhadores no mesmo barco, fazendo-os remar para o mesmo lado (sem, contudo, abdicarem de defender mutuamente os seus pontos de vista), eis que recebem um pouco mais do dobro do salário mínimo como prémio.
O que eu pergunto é o seguinte: não haverá porventura quem compreenda que ali mora um bom exemplo do que podia ser exportado para o resto do país? A culpa não é só dos trabalhadores e dos sindicatos. A culpa é de que em governa e não tem a humildade (sim, humildade) e, já agora, a decência, de tornar obrigatório a utilização de mecanismos mais flexíveis que vão ao encontro de um ponto médio dos interesses de empregadores e trabalhadores.
É espantoso.