Eu prefiro e sempre preferi a verdade à mentira ou à ocultação. Também acho que os políticos devem ser transparentes, tanto quanto possível, bem sabendo que existem áreas em que o próprio interesse pátrio desaconselha demasiada transparência. Sócrates e os seus governos foram o expoente máximo da ocultação e do disfarce, ao não dizerem tudo o que sabiam, ao dizerem diferente do que sabiam e, finalmente, ao mascarar o que sabiam.
Bem ou mal, e muitas vezes mal, o actual Governo tem-se preocupado em dizer a verdade, especialmente no que diz respeito às contas públicas. Valha-nos isso. Eu, de facto, prefiro ter conhecimento do estado terminal em que estou e tentar reagir a isso do que imaginar que estou razoável e cometer algumas asneiras só porque acho que posso. Nada pior do que a ignorância induzida.
No entanto, confesso a minha total perplexidade quando, dez escassos dias depois de termos começado o ano (!), o ministro das Finanças vem anunciar que para cumprir a meta do défice prevista para 2012 serão precisas "medidas de austeridade" adicionais. O mesmo quando oiço que tais medidas se ficarão a dever ao facto de os fundos de pensões da banca (em si mesmas uma receita adicional) terão que tapar o buraco criado pelos famigerados hospitais empresa (E.P.E.).
Eu acho que nós, portugueses, já estamos, senão totalmente, pelo menos meio anestesiados com tudo isto, mas, caramba, a notícia após apenas dez em trezentos e sessenta e seis dias (este ano é bissexto) de que continuarão a ir-nos ao bolso é arrasadora. E pior, mais arrasador ainda é a sensação de que a manta jamais chegará para tapar, do mesmo passo, o pescoço e os pés.