"Entre
uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de
teres nascido. Se te tivesse saído a "sorte grande", haveria gente que
se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que
parecia um "sonho", que era inacreditável, que ainda não tinhas caído
em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de
milhares ou mesmo centenas. Mas teres nascido é ter-te saído a sorte
entre biliões e biliões e biliões de hipóteses negativas. Saiu-te o
número inscrito numa areia do universo. Tens pois o privilégio incrível
de veres o sol, as flores, os animais. De ouvires as aves e o vento. De.
E todavia, como esqueces isso tão facilmente. Breve tudo se apagará em
silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente
ninguém mais saberá que exististe. E mesmo dos que o souberem, não se
saberá um dia. Num momento não muito longínquo morrerá o último homem
sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte,
porque tu és o primeiro e o último homem que nasceu. Tudo é rápido e
contingente e miraculoso. Tudo é rápido e sem consequências. A única
consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não
inutilizes a fabulosa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e
olha, que a morte vai a passar. E terás cumprido ao menos, para com o
universo, um pouco do teu dever de gratidão."
Pensar, Vergílio Ferreira