Está a entranhar-se, não apenas na vida portuguesa, como (sobretudo) na comunitária e na dos mercados (seja isso o que for), que Portugal não conseguirá pagar a dívida e que, portanto, não há como não a reestruturar. Perguntado sobre essa possibilidade Barroso veio logo dizer que a medida aplicada à Grécia foi única e excepcional. Porém, todos nós sabemos pelo que temos assistido nestes últimos dois anos como o que é hoje único e excepcional se torna banal amanhã, num abrir e fechar de olhos que ninguém antevira possível. Ora, essa aparente impossibilidade decorre não apenas da incompetência dos actuais líderes europeus, como do figurino europeu, o qual não confere suficiente poderes às suas instituições no sentido de estas poderem enfrentar as decisões caprichosas de alguns estadistas mais preocupados com a sua própria reeleição do que com os destinos da Europa (falo, evidentemente, de Merkel e Sarkozy). Se não estivéssemos - hélas! - a falar dos dois maiores e mais influentes países da UE talvez a história fosse diferente, mas assim sendo, é o que é e o que estamos a ver.
Internamente, vemos, também com uma clareza cristalina, que o Governo se prepara para negociar e que, nessa lógica, anunciou muito mais do que quer de facto executar. Qualquer pessoa habituada a negociações sabe, efectivamente, que para se poder recuar tem que se pedir (muito) mais do que se pretende a final. Nessa medida, talvez o corte dos subsídios de férias e Natal não seja exactamente como se anunciou, assim como outras medidas do género. Nesse sentido, também a renegociação das condições do empréstimo internacional - que o Governo dizia ser extemporâneo fazer agora, antes de cumpridas as metas impostas - é já admitida pelo próprio primeiro ministro, numa demonstração de vontade em não afrontar não apenas o PS, mas todas as pessoas tecnicamente competentes que vêm defendendo esse caminho.
No final do dia e depois de ler notícias absolutamente contraditórias sobre o mesmíssimo assunto, ambas supostamente oriundas de técnicos respeitáveis e com provas dadas, retiro para mim que não há uma única pessoa no mundo (e não é figura de estilo) que saiba dizer com suficiente grau de certeza o que é que vai acontecer, i.e., com que linhas nos vamos coser nos próximos cinco anos. Isso não é bom para a economia, uma vez que esta vive do binómio previsibilidade/ imprevisibilidade, precisando tanto da primeira como da segunda.
Quando se diz que os governantes não estão à altura, o que se pretende não é dizer que os mesmos se poderiam sobrepor às regras do mercado, adestrando-o, mas sim que deviam ser capazes de traçar um rumo do qual não se desviassem. Em tempos de crise e incerteza agudas como os que estamos a viver (e vai piorar), esse seria o único baluarte capaz de nos dar algum conforto colectivo. Por muito que pudesse discordar de algumas medidas anunciadas pelo Governo, entendi-as a essa luz. No entanto, vejo que se prepara para ceder e negociar, atirando fora o que dizia e defendia tão convictamente. Pois é precisamente isso que é pernicioso nestes tempos em que vivemos. Mais pernicioso do que qualquer outra coisa. Uma vez que quem manda na economia já não vive em Portugal há muito tempo.
31.10.11
26.10.11
Deamblogações vespertinas
Este PS é uma vergonha. É uma vergonha porque não faz oposição com coragem. É uma vergonha porque diz de mansinho as maiores inanidades (como seja sugerir que os membros do Governo estão de má fé). É uma vergonha porque, de repente e como lhe convém, esqueceu-se do interesse nacional e voltou rapidamente as costas ao documento que ele próprio assinou. Repito: ele próprio assinou. Este PS é uma vergonha. A ver vamos qual a posição que tomará na próxima semana quanto ao OE.
20.10.11
Deamblogações matinais
Lembro-me muito bem das primeiras eleições que Cavaco Silva ganhou em 1985. Lembro-me igualmente da primeira maioria absoluta em 1987 e de ir festejar para a rua. Estava nesse dia no Alentejo, de férias. Quase por maioria de razão, lembro-me das eleições de 1991 e, por fim, das primeiras presidenciais a que Cavaco se candidatou e perdeu. Nesse dia fiquei com a sensação de que Portugal tinha desperdiçado uma boa oportunidade de ter um verdadeiro contra-poder (no sentido de manutenção do equilíbrio) ao Governo socialista. Passados os dez anos da praxe, quando Cavaco se recandidatou à presidência, apoiei-o firmemente e voltei a pensar que seria então que iríamos ter um presidente como deve ser, verdadeiro intérprete da Constituição, mas de uma forma actuante, que não fizesse letra morta do que lá estivesse escrito e, em vez disso, o utilizasse para ajudar o país. Estava-se longe da actual situação. Durante o primeiro mandato, senti-me logo desiludido porque, ao invés do que pensara, não via Cavaco tomar posições que me pareciam óbvias, sentindo-o, pelo contrário, calculista e cauteloso de mais. Fui-me desencantando ao longo dos primeiros cinco anos até chegar à reeleição, momento em que, sem chama, voltei a votar nele. O resto é recente.
Sempre fui cavaquista. Cheguei a pensar que aquele homem encarnava o self-made man no que isso tem de melhor: humilde, educado, culto (no sentido académico do termo), coerente, teimoso, racional, intransigente. Com isso, poderia influenciar parte significativa do povo português e, desse modo, levá-lo a melhorar, a lutar, a querer ascender social e economicamente, o que podia funcionar como motor da sociedade para o seu desenvolvimento sustentado e futuro.
Passados quase trinta anos, vejo que me enganei. Sim, é verdade que parte do monstro de que o próprio falava e escrevia há anos atrás foi obra dele. Parte da classe política que hoje temos foi criada por ele (ainda que provavelmente sem dolo). Parte da corrupção e da teia de interesses existente entre o mundo dos negócios e da política cresceu e floresceu no tempo dele. Enfim, parte significativa do nosso actual problema começou no tempo dele.
Já tinha dado por isto mas, sem muito bem perceber porquê, negava-o para mim mesmo. Achava que talvez não fosse bem assim e que tudo não passasse, afinal, de uns quantos episódios menos felizes, não sendo o homem como alguns queriam pintar. Até ontem.
Ontem fez-se luz e finalmente percebi. Percebi que há muito não sou cavaquista. Há muito que vinha germinando no meu espírito que Cavaco não era bem o que queria mostrar que era. Mas ontem, o copo entornou-se definitivamente. Vi e revi vezes sem conta as suas palavras ao sair de um evento público e por momentos não quis acreditar que o Presidente da República estivesse a dar uma facada gigantesca no povo - em todo o povo, esteja ou não ele de acordo com as medidas do Governo - do seu próprio país. Ainda pensei que aquilo não fosse o que parecia ser. Mas era. Ao dizer o que disse, Cavaco mostrou-se muito mais do que calculista: mostrou (finalmente?) que nunca teve um pingo de solidariedade para com os seus, que sempre preferiu os seus interesses (políticos) ao bem da Nação. Mais: ao dizer o que disse, Cavaco mostrou em todo o seu esplendor a sua total irresponsabilidade. A mesma pessoa que tem plena e absoluta noção do peso e efeito das suas palavras, é aquela que não se importa - em nome de quê? da sua própria glória? - de apunhalar o Governo no momento em que nos encontramos todos colectivamente, relegando para plano inferior (como se tal fosse possível) o efeito devastador das suas palavras. Como alguém dizia ontem, se, até ontem era algo difícil afrontar publicamente as medidas contidas no OE (com excepção óbvia dos sindicatos ligados à esquerda que sempre o fariam por dever de função), a partir de agora não apenas é fácil, como tal posição tem a chancela presidencial. Cavaco virou ontem costas a dez milhões de pessoas e a menos que conte emigrar no fim do mandato, também a si próprio, à sua família e aos seus protegidos. Porque aquilo que ele fez ontem foi abrir uma brecha irreparável numa parede que já estava colada com cola mas que agora pode muito bem desabar em cima de todos nós (ele incluído). Retirar daquela forma violenta, crítica, pública e totalmente descabida a caução às medidas anunciadas pelo Governo foi abrir a porta à guerrilha partidária (deixando o interesse nacional para quinto plano), a eventuais sublevações populares e à impossibilidade de se implementarem as medidas anunciadas. Para além, como se fosse pouco!, de tornar muito mais frágil a posição de Portugal na cena internacional, debilitando a sua posição nos tão famigerados mercados. Foi tão só isto que as palavras de Cavaco produziram.
Ontem Cavaco foi mesquinho. Foi pequeno. Foi poucochinho. Pôs os seus interesses à frente dos interesses do país e da sua gente. Pobre gente esta que, para além de um futuro desgraçado, nem um presidente que tome conta deles tem.
Ontem, oficialmente, tornei-me anti-cavaquista. Quase tão feroz quanto outrora fui seu defensor.
Sempre fui cavaquista. Cheguei a pensar que aquele homem encarnava o self-made man no que isso tem de melhor: humilde, educado, culto (no sentido académico do termo), coerente, teimoso, racional, intransigente. Com isso, poderia influenciar parte significativa do povo português e, desse modo, levá-lo a melhorar, a lutar, a querer ascender social e economicamente, o que podia funcionar como motor da sociedade para o seu desenvolvimento sustentado e futuro.
Passados quase trinta anos, vejo que me enganei. Sim, é verdade que parte do monstro de que o próprio falava e escrevia há anos atrás foi obra dele. Parte da classe política que hoje temos foi criada por ele (ainda que provavelmente sem dolo). Parte da corrupção e da teia de interesses existente entre o mundo dos negócios e da política cresceu e floresceu no tempo dele. Enfim, parte significativa do nosso actual problema começou no tempo dele.
Já tinha dado por isto mas, sem muito bem perceber porquê, negava-o para mim mesmo. Achava que talvez não fosse bem assim e que tudo não passasse, afinal, de uns quantos episódios menos felizes, não sendo o homem como alguns queriam pintar. Até ontem.
Ontem fez-se luz e finalmente percebi. Percebi que há muito não sou cavaquista. Há muito que vinha germinando no meu espírito que Cavaco não era bem o que queria mostrar que era. Mas ontem, o copo entornou-se definitivamente. Vi e revi vezes sem conta as suas palavras ao sair de um evento público e por momentos não quis acreditar que o Presidente da República estivesse a dar uma facada gigantesca no povo - em todo o povo, esteja ou não ele de acordo com as medidas do Governo - do seu próprio país. Ainda pensei que aquilo não fosse o que parecia ser. Mas era. Ao dizer o que disse, Cavaco mostrou-se muito mais do que calculista: mostrou (finalmente?) que nunca teve um pingo de solidariedade para com os seus, que sempre preferiu os seus interesses (políticos) ao bem da Nação. Mais: ao dizer o que disse, Cavaco mostrou em todo o seu esplendor a sua total irresponsabilidade. A mesma pessoa que tem plena e absoluta noção do peso e efeito das suas palavras, é aquela que não se importa - em nome de quê? da sua própria glória? - de apunhalar o Governo no momento em que nos encontramos todos colectivamente, relegando para plano inferior (como se tal fosse possível) o efeito devastador das suas palavras. Como alguém dizia ontem, se, até ontem era algo difícil afrontar publicamente as medidas contidas no OE (com excepção óbvia dos sindicatos ligados à esquerda que sempre o fariam por dever de função), a partir de agora não apenas é fácil, como tal posição tem a chancela presidencial. Cavaco virou ontem costas a dez milhões de pessoas e a menos que conte emigrar no fim do mandato, também a si próprio, à sua família e aos seus protegidos. Porque aquilo que ele fez ontem foi abrir uma brecha irreparável numa parede que já estava colada com cola mas que agora pode muito bem desabar em cima de todos nós (ele incluído). Retirar daquela forma violenta, crítica, pública e totalmente descabida a caução às medidas anunciadas pelo Governo foi abrir a porta à guerrilha partidária (deixando o interesse nacional para quinto plano), a eventuais sublevações populares e à impossibilidade de se implementarem as medidas anunciadas. Para além, como se fosse pouco!, de tornar muito mais frágil a posição de Portugal na cena internacional, debilitando a sua posição nos tão famigerados mercados. Foi tão só isto que as palavras de Cavaco produziram.
Ontem Cavaco foi mesquinho. Foi pequeno. Foi poucochinho. Pôs os seus interesses à frente dos interesses do país e da sua gente. Pobre gente esta que, para além de um futuro desgraçado, nem um presidente que tome conta deles tem.
Ontem, oficialmente, tornei-me anti-cavaquista. Quase tão feroz quanto outrora fui seu defensor.
19.10.11
17.10.11
Inquietações matinais
"Há algo de profundamente errado na maneira como hoje vivemos. Durante trinta anos considerámos ser uma virtude a procura da satisfação material: de facto, essa procura constitui agora o que resta do nosso sentido de finalidade colectiva. Sabemos o preço das coisas, mas não fazemos ideia do que valem. Sobre uma decisão judicial ou um acto legislativo já não perguntamos: é bom? É justo? É correcto? Ajudará a alcançar uma sociedade melhor ou um mundo melhor? Eram estas em geral as perguntas políticas, ainda que não propiciassem respostas simples. Temos novamente de aprender a fazê-las.
A qualidade materialista e egoísta da vida contemporânea não é intrínseca à condição humana. Muito do que hoje parece "natural" remonta aos anos 80: a obssessão pela criação de riqueza, o culto da privatização e do sector privado, as crescentes disparidades entre ricos e pobres. E sobretudo a retórica que vem a par de tudo isto: admiração acrítica dos mercados sem entraves, desdém pelo sector público, a ilusão do crescimento ilimitado.
Não podemos continuar a viver assim. (...)"
Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, Tony Judt
A qualidade materialista e egoísta da vida contemporânea não é intrínseca à condição humana. Muito do que hoje parece "natural" remonta aos anos 80: a obssessão pela criação de riqueza, o culto da privatização e do sector privado, as crescentes disparidades entre ricos e pobres. E sobretudo a retórica que vem a par de tudo isto: admiração acrítica dos mercados sem entraves, desdém pelo sector público, a ilusão do crescimento ilimitado.
Não podemos continuar a viver assim. (...)"
Um Tratado Sobre Os Nossos Actuais Descontentamentos, Tony Judt
10.10.11
Deamblogações matinais
"Percebi que estava louco quando, certo dia, dei por mim a olhar avidamente para o peito da minha ex-mulher."
Subscrever:
Mensagens (Atom)
