Lembro-me muito bem das primeiras eleições que Cavaco Silva ganhou em 1985. Lembro-me igualmente da primeira maioria absoluta em 1987 e de ir festejar para a rua. Estava nesse dia no Alentejo, de férias. Quase por maioria de razão, lembro-me das eleições de 1991 e, por fim, das primeiras presidenciais a que Cavaco se candidatou e perdeu. Nesse dia fiquei com a sensação de que Portugal tinha desperdiçado uma boa oportunidade de ter um verdadeiro contra-poder (no sentido de manutenção do equilíbrio) ao Governo socialista. Passados os dez anos da praxe, quando Cavaco se recandidatou à presidência, apoiei-o firmemente e voltei a pensar que seria então que iríamos ter um presidente como deve ser, verdadeiro intérprete da Constituição, mas de uma forma actuante, que não fizesse letra morta do que lá estivesse escrito e, em vez disso, o utilizasse para ajudar o país. Estava-se longe da actual situação. Durante o primeiro mandato, senti-me logo desiludido porque, ao invés do que pensara, não via Cavaco tomar posições que me pareciam óbvias, sentindo-o, pelo contrário, calculista e cauteloso de mais. Fui-me desencantando ao longo dos primeiros cinco anos até chegar à reeleição, momento em que, sem chama, voltei a votar nele. O resto é recente.
Sempre fui cavaquista. Cheguei a pensar que aquele homem encarnava o self-made man no que isso tem de melhor: humilde, educado, culto (no sentido académico do termo), coerente, teimoso, racional, intransigente. Com isso, poderia influenciar parte significativa do povo português e, desse modo, levá-lo a melhorar, a lutar, a querer ascender social e economicamente, o que podia funcionar como motor da sociedade para o seu desenvolvimento sustentado e futuro.
Passados quase trinta anos, vejo que me enganei. Sim, é verdade que parte do monstro de que o próprio falava e escrevia há anos atrás foi obra dele. Parte da classe política que hoje temos foi criada por ele (ainda que provavelmente sem dolo). Parte da corrupção e da teia de interesses existente entre o mundo dos negócios e da política cresceu e floresceu no tempo dele. Enfim, parte significativa do nosso actual problema começou no tempo dele.
Já tinha dado por isto mas, sem muito bem perceber porquê, negava-o para mim mesmo. Achava que talvez não fosse bem assim e que tudo não passasse, afinal, de uns quantos episódios menos felizes, não sendo o homem como alguns queriam pintar. Até ontem.
Ontem fez-se luz e finalmente percebi. Percebi que há muito não sou cavaquista. Há muito que vinha germinando no meu espírito que Cavaco não era bem o que queria mostrar que era. Mas ontem, o copo entornou-se definitivamente. Vi e revi vezes sem conta as suas palavras ao sair de um evento público e por momentos não quis acreditar que o Presidente da República estivesse a dar uma facada gigantesca no povo - em todo o povo, esteja ou não ele de acordo com as medidas do Governo - do seu próprio país. Ainda pensei que aquilo não fosse o que parecia ser. Mas era. Ao dizer o que disse, Cavaco mostrou-se muito mais do que calculista: mostrou (finalmente?) que nunca teve um pingo de solidariedade para com os seus, que sempre preferiu os seus interesses (políticos) ao bem da Nação. Mais: ao dizer o que disse, Cavaco mostrou em todo o seu esplendor a sua total irresponsabilidade. A mesma pessoa que tem plena e absoluta noção do peso e efeito das suas palavras, é aquela que não se importa - em nome de quê? da sua própria glória? - de apunhalar o Governo no momento em que nos encontramos todos colectivamente, relegando para plano inferior (como se tal fosse possível) o efeito devastador das suas palavras. Como alguém dizia ontem, se, até ontem era algo difícil afrontar publicamente as medidas contidas no OE (com excepção óbvia dos sindicatos ligados à esquerda que sempre o fariam por dever de função), a partir de agora não apenas é fácil, como tal posição tem a chancela presidencial. Cavaco virou ontem costas a dez milhões de pessoas e a menos que conte emigrar no fim do mandato, também a si próprio, à sua família e aos seus protegidos. Porque aquilo que ele fez ontem foi abrir uma brecha irreparável numa parede que já estava colada com cola mas que agora pode muito bem desabar em cima de todos nós (ele incluído). Retirar daquela forma violenta, crítica, pública e totalmente descabida a caução às medidas anunciadas pelo Governo foi abrir a porta à guerrilha partidária (deixando o interesse nacional para quinto plano), a eventuais sublevações populares e à impossibilidade de se implementarem as medidas anunciadas. Para além, como se fosse pouco!, de tornar muito mais frágil a posição de Portugal na cena internacional, debilitando a sua posição nos tão famigerados mercados. Foi tão só isto que as palavras de Cavaco produziram.
Ontem Cavaco foi mesquinho. Foi pequeno. Foi poucochinho. Pôs os seus interesses à frente dos interesses do país e da sua gente. Pobre gente esta que, para além de um futuro desgraçado, nem um presidente que tome conta deles tem.
Ontem, oficialmente, tornei-me anti-cavaquista. Quase tão feroz quanto outrora fui seu defensor.
