7.12.11

Deamblogações nocturnas

«(...) É por esta espécie de fatalidade (que inclui o nosso crescimento precipitado, o pó dos dias, descuidos e desamparos, e alguns maus exemplos, tudo a atropelar-se, ao mesmo tempo) que os psicanalistas responsabilizam o inconsciente. Que é uma forma metafórica de falarem de tudo o que varremos para debaixo do tapete e que, ao contrário do que devia ser, nos atrapalha todos os dias. Inconsciente é tudo o que sentimos (sem dar por isso) e tudo o que pensamos (quase sem querer) e que interfere muito mais nos nossos gestos do que nós queríamos. Duma forma simplista devíamos escutá-lo com mais rigor. (As pessoas chamam, grande parte das vezes, ao inconsciente, o coração. Reconhecem, no fundo, que se baralham nos seus silêncios diante de tudo o que sentem e que, em vez de serem complexas mas simples, os nós que emaranham fazem com que se tornem complicadas.) Mas o crescimento é tão apelativo (e nós somos todos tão ambiciosos) que - admito - quando dão por isso, quase todas as pessoas têm uma relação para gerir, um ou dois filhos, muitas contas, duas famílias de origem (por vezes, muito caprichosas e intolerantes), episódios dolorosos e muitas histórias mal esclarecidas da infância. E alguém que morreu cedo de mais. E várias histórias que podiam ser de amor mas que correram mal. E saudades duma mão-cheia de coisas que deixaram por fazer. E um trabalho, nem sempre criativo ou amistoso. E as horas que passam a correr. E as notícias de todos os dias que, rapidamente, se transformam num ruído. Reconheço que quase ninguém gere a sua vida: surfa nela. Ou, se preferir, é arrastado por ela. Na verdade, a maioria das pessoas sente, muito depressa, que fica encurralada em compromissos. Vive como se fosse morrendo, para a vida, todos os dias. E, pior, sente (em inúmeras circunstâncias) que dorme com o «inimigo». A maioria das pessoas sente que passou, cedo demais, das fantasias em torno da sexualidade, da adolescência, para a pré-reforma com a vida. Sem nunca namorar com ela. Como se muito cedo se tivesse tornado, para sempre, tarde de mais.»

Eduardo Sá, Nunca se Perde uma Paixão, Histórias e ensaios sobre o amor