O que mais custa, dizia, é a passagem dos dias, sempre iguais, a deambular para aí... Falava num tom calmo e suave. A roupa era puída e o rosto algo acossado, como se envergonhado pelas traições da vida.
Imaginei que pudesse ser mais uma vítima do desemprego, dessas vítimas que grassam por aí cada vez mais como fantasmas sem destino. Pergunto-me o que é que um homem de cinquenta e tal anos desempregado vai fazer nesta altura do campeonato senão assombrar as ruas e as carruagens de metro...
Adeus um beijinho, despediu-se ele no mesmo tom calmo, e pôs o telemóvel dentro do casaco, o mesmo que em outros tempos talvez tenha sido bom e até caro, numa altura em que talvez houvesse dinheiro para casacos caros, gasolina para o carro em vez do metro, almoços e jantares em restaurantes bons. Não sei. Não consegui perceber se assim era. O que vi era um rosto acossado, como se envergonhado de noutros tempos poder ter visto uma vida que agora já não tinha. Restavam-lhe as roupas e o ar composto, num vento de dignidade que, como vento que é, se perde no fio dos dias, se estes não trouxerem em breve nada de bom.