14.12.10

Inquietações matinais

Não sei o que achar do Wikileaks. Balanço entre considerar que as revelações são más para o mundo tal como o conhecemos e achar que, de facto, existem muitos gatos escondidos com rabo de fora. Muitos e cada vez mais, ao que parece.
A principal conclusão a que chego ao ler as notícias que saem a toda a hora é que já nada é o que parece (provavelmente nunca foi, mas a (in)consciência fazia a diferença). A situação financeira de Portugal e dos portugueses não é a que pareceu durante anos a fio. A honestidade dos políticos que nos governam não é a que queríamos que fosse nem a que eles nos querem fazer crer que é. A "verdade" que nos é transmitida sobre as mais variadas coisas não é verdade alguma. As soluções apresentadas para a crise não resolvem nada porque não são verdadeiras soluções. A verdade dos "mercados" é tão flutuante como maré em dia de tempestade e não parece traduzir um verdadeiro sentimento dos investidores face às posições que vão sendo tomadas relativamente à dívida soberana. A União Europeia está longe de ser uma união entre Estados, parecendo antes uma coligação de interesses que funcionou enquanto alguns tiveram a paciência de financiar o sistema. Os EUA estão longe de ser os bons da fita mas, verdade seja dita, estão longe de ser os maus da fita como muitos querem fazer crer e é de bom tom dizer. Enfim, falta tempo e alguma paciência para acrescentar mais factos, circunstâncias, negócios, políticas, políticos e casos que parecem verdadeiros e que não são. Cá e por esse mundo fora. Sim, porque a triste conclusão a que chego é que cá as coisas só são mais pequeninas. É tudo um pouco pequenino. É o diploma universitário (que não existe) do primeiro ministro, são os projectos (que não existem) assinados pelo engenheiro (que não existe) Sócrates, são as trocas de cadeiras nas empresas públicas, é o desgraçado valor do salário mínimo nacional, são as desgraçadas contas públicas, essas sim com alguma dimensão (haja alguma coisa!).
Sempre me foi ensinado que há coisas que é preferível não saber. Sempre pensei e pratiquei esta verdade que desde cedo tomei como boa. Francamente, não sei se quero saber o que nos é agora revelado pelo Wikileaks. Não sei se o mundo fica melhor por reabrir o caso Maddie, não sei se Portugal fica pior por se saber que os vôos da CIA passaram pelo nosso espaço aéreo, não sei se as relações entre o nosso país e os EUA ficam diferentes por virem a lume os relatórios habitualmente enviados pelos diplomatas americanos acerca dos políticos portugueses. Pergunto-me, aliás, quem em Washington terá interesse em saber que o engenheiro (que não existe) Sócrates tem carisma (carisma?!...) e é teimoso e que o PR ficou muito sentido de não ter sido recebido na sala oval da Casa Branca. Quem será assim tão dispensável que faça da leitura e análise disto uma profissão?
É. De facto, há coisas que prefiro não saber. Deixem-nos viver no matrix. Não é que sejamos felizes, mas pelo menos temos alguma paz de espírito que vamos inevitavelmente perder (embora por pouco tempo) com as revelações do Wikileaks. Estaremos prontos para a guerra?