Em entrevista dada ao Público, o sociólogo Boaventura Sousa Santos faz a seguinte afirmação: «É natural que algo aconteça a partir do momento em que estas medidas possam entrar não só no bolso, mas na cabeça das pessoas e estas percebam que estão a ser roubadas para que o sistema financeiro e os bancos continuem a ganhar rios de dinheiro e a fazer disparar o consumo ostentatório que tem neste Natal um dos pontos mais altos desde 2008».
Muito se tem falado sobre o carácter pacífico dos portugueses. De facto, não é preciso ter grandes e vastos conhecimentos para se perceber que os gregos e os espanhóis (bem como os italianos) têm muito mais sangue na guelra, o que provoca protestos mais violentos e sangrentos (também os ingleses, como se viu recentemente com a questão das propinas, e os franceses com as greves gerais). Mas, voltando aos portugueses, muito se tem dito que o clima de tensão que subjaz à actual situação pode, a qualquer momento, fazer disparar a violência. É um facto que o futuro mais ou menos imediato se encarregará de demonstrar.
Bem diferente é o que fez Boaventura Sousa Santos que, no uso da sua qualidade de sociólogo, mais do que analisar e interpretar, decidiu dar a sua opinião sobre o fenómeno, não se coibindo de acusar o sistema financeiro de causador da actual situação, chegando mesmo a dizer que as pessoas estão a ser roubadas.
Ora, eu considero isto um excesso lamentável e inadmissível. A pessoa em questão devia, pelos anos de experiência mediática que tem, conter-se e evitar confundir os planos: uma coisa são as suas convicções pessoais, que tem todo o direito de ter, outra bem diferente a análise sociológica que faz, retirando daí e propondo explicações para os fenómenos.
Para além de tudo, tais afirmações são irresponsáveis e incendiárias. Se um intelectual pensa assim, porque não um homem médio passar das palavras aos actos, já que tal está superiormente justificado?