12.10.10

Inquietações matinais

Há coisas que custam a perceber. O Governo apresentou um orçamento para 2010 que passou na AR. Depois, fruto da crise económica e financeira, apresentou o PEC1 e, posteriormente, o PEC2. Não vi qualquer comentário de estupefacção com o facto de o PEC2 ter sido apresentado depois de ter decorrido o prazo para o PR poder dissolver a AR. Efectivamente, foi evidente o tactismo político do Governo, com Sócrates, Silva Pereira e Teixeira dos Santos à cabeça, no sentido de evitar apresentar um pacote que estava há tempo considerável decidido, evitando, desse modo, o risco de dissolução parlamentar.
Isto dito, recai agora o ónus sobre o PSD como se lhe coubesse salvar o estado a que o país chegou e como se a responsabilidade do eventual desastre (que está por provar) da não existência de orçamento para 2011 pudesse ser-lhe assacada. Mais: diz-se à boca cheia que os dirigentes do PSD, em particular o seu líder, são irresponsáveis se não aprovarem o orçamento. E mais ainda: pede-se-lhes que aprovem o documento mesmo antes de o conhecerem, como fez Manuela Ferreira Leite, a qual tem um peso específico na matéria pelo facto de ter desempenhado um cargo dirigente até há bem pouco tempo.
Ora, eu, por mais que tente, não consigo compreender estas posições. Toda a gente diz que os mercados (seja isso o que for) estão atentos ao que cá se passa e que reagirão de imediato à falta de orçamento. Como ontem dizia João Duque, também era expectável que esses mesmos mercados, depois da aprovação do PEC2, tivessem abrandado mais a sua pressão sobre a dívida soberana portuguesa do que realmente aconteceu. A taxa de juro a 10 anos sobre a dívida pública estava ontem em 6,2%, quando antes do PEC2 atingiu os 6,6%. A diferença não é muita...
Não é, pois, sobre o PSD que está a pressão da salvação pátria. É no PS e no seu (fraco) líder. Como também dizia João Duque, não é o PSD que tem que se aproximar do PS para salvar a situação, mas sim este último que tem que ir ao encontro das propostas alternativas do PSD. Isto sim, é capacidade de diálogo. Isto sim, é uma atitude responsável. Isto sim, é (seria) assumir os erros do passado recente e demonstrar uma vontade em alterar o paradigma em que temos vivido.
Passos Coelho não deve dar um cheque em branco a Sócrates. Não podemos pedir responsabilidade a quem não a tem efectivamente. Há, de facto, coisas que não consigo compreender.