Calor. Está um calor de morrer. Derretido no alcatrão da Av. da República enquanto os carros, os poucos carros que se vêem por aí, despejam o fumo que com este calor invade de forma insuportável os pulmões de quem anda a pé. Está aquele calor que faz tremer o chão e os tejadilhos dos carros, o mesmo que faz tremer a areia da praia, a praia que está por enquanto tão longe dos olhos quanto dos dias que teimam em passar devagar, num ritmo que é lento e compassado, parece que atrasado pelo calor que está.
O homem do lixo não consegue varrer porque sua ao sol como se estivesse debaixo de um chuveiro; em vez disso prefere ver se a máquina da emel tem moedas e para isso dá-lhe um murro a ver se pinga alguma coisa. Depois agarra-se ao pau da vassoura e coça a cabeça porque é evidente que preferia não estar ali, nem naquele espaço nem naquelo tempo. Preferia estar a beber cerveja e a comer uns caracóis no Algarve, em Quarteira, em frente àquela praia que tem uma restaurante que é bem bom. Não conheço mas deve ser bem bom. É isso que ele deve estar a pensar enquanto pensa como não varrer a rua que lhe coube em sorte neste dia de calor, uma rua desprotegida e sem uma única árvore, como são cada vez mais as ruas de Lisboa.
Não se vê muito gente e quem se vê vê-se que sofre. De alguma maneira. Por estar cá e por não estar ao mesmo tempo, como se houvesse uma transumância da alma daqui para sítios mais frescos e agradáveis.
O homem do lixo coça a cabeça e pensa na cerveja que não vai beber e nos bichos que não vai comer. Em vez disso mexe outra vez na máquina da emel. Pode ser que jorre um pingo de moedas que pague o esforço de trabalhar nestas condições. É Verão. Lisboa. Está calor. Muito.