6.12.09

Deamblogações vespertinas



O problema da proibição dos minaretes na Suíça não é, evidentemente, um problema apenas local. Como tem sido dito nos diversos meios de comunicação social um pouco por todo o lado, trata-se, isso sim, de um problema civilizacional, sobretudo relacionado com o mundo ocidental ou, pelo menos, com parte dele. Mas uma parte significa. Senão vejamos:
Existe uma espécie de crença, que tem vindo a seduzir adeptos e defensores desde o 11 de Setembro de 2001, de que o que vem do mundo muçulmano é mau e fundamentalista, atentando contra os valores da liberdade propalados pelo Ocidente. Essa espécie de crença - porque não se trata de uma crença no sentido verdadeiro do termo, porquanto não tem um fundamento teórico ou cultural sólido - tem sido aproveitada pelos mais que muitos movimentos extremistas existentes em todos os países, que buscam as faixas insatisfeitas da população, com o argumento populista e profundamente falso de que o Corão é intolerante e incapaz de aceitar a liberdade assente no pluralismo. Não conheço o Corão para falar dele, nem tão pouco a fundo a sociedade árabe, genericamente falando, para assentar o que penso numa posição doutrinária. No entanto, por experiência já vivida, sou capaz de perceber que, ainda que com excepções de ambos os lados, existe uma muito maior incapacidade por parte do mundo ocidental aceitar o mundo islâmico do que o contrário. Existe uma maior facilidade de adaptação deste último ao primeiro do que vice-versa. A questão começa na tentativa de imposição dos valores ocidentais aos "estrangeiros", ou seja, a quem os não compartilha. Porque é que os "nossos" valores são os correctos, os aceitáveis, os condizentes com os valores da democracia, da liberdade, da igualdade e da tolerância? Ao pensarmos que assim é com carácter quase exclusivo (como se para além de nós muito poucas culturas partilhassem dos mesmos valores), estamos a cometer um erro crasso, tornando-nos (profundamente) intolerantes para todos aqueles que, como nós, têm as suas culturas assentes em pilares sólidos e doutrinariamente trabalhados.
Não me é indiferente ver mulheres com burqa, sobretudo quando os respectivos maridos se passeiam indiferentes usando calções, t-shirt e ténis Nike ou Puma e usam carros e relógios vistosos. como é tantas e tantas vezes o caso nos países muçulmanos. Também não me é indiferente que haja uma diferenciação das mulheres, tal como aí sucede. Como, de resto, não me seria indiferente se me visse obrigado, eu próprio ou pelo contexto em que estivesse, a parar cinco vezes ao dia para rezar virado para Meca. Ou a comer com as mãos. Ou a ter hábitos de higiene diferentes daqueles que tenho. Ou a considerar as sextas-feiras como os dias de paragem semanal obrigatória. Ou a ter da vida uma concepção essencialmente confessional. De facto, nada disto me seria indiferente, como, segundo penso, a qualquer um de nós, ocidentais.
Não é isso, porém, que está em causa. De facto, ninguém me tentou impôr uma ou mais dessas características em que assenta a cultura e a sociedade islâmicas. Para adoptar a minha posição, não sei nem me interessa saber se os muçulmanos são ou não indiferentes à existência de igrejas com sinos nas suas cidades, ou se ficam mais ou menos incomodados com a equiparação legal e civilizacional da mulher ao homem. Até podem ser ferozmente contra e querer desencadear uma fatwa contra quem assim pense. Nada disso importa. A questão é que, ao serem proibidos os minaretes na Suíça, o mundo ocidental está a dar duas indicações: primeiro a de intolerância; segundo a de que tem medo, porque só quem tem medo (muitas vezes de forma legítima) proíbe. Ora, qualquer desses dois significados são errados e perigosos. Errados porque não se inscrevem dentro de uma cultura (a ocidental) que foi aprendendo a conviver com o multi-culturalismo de forma aberta e plural. Perigosos porque acicatam os espíritos mais tortuosos, que não deixarão de utilizar este exemplo como fundamento para não apenas reunir mais adeptos, como igualmente para legitimar eventuais acções visíveis aos olhos de todos.
Existem princípios extremamente simples que deviam ser mais utilizados do que na verdade são. Conta-se que o princípio jurídico do abuso do direito nasceu em França, quando um vizinho quis prejudicar o outro retirando-lhe o sol do seu jardim, para o que construiu uma chaminé exageradamente alta, apenas com esse propósito. Repare-se que, num primeiro momento, até parece absolutamente legítimo: o construtor estava na sua propriedade, podendo fazer nela o que quisesse. Pois bem, deixou de ser assim a partir do momento em que o Tribunal da Cassação decidiu - e bem - que a prática de tal acto visava tão só prejudicar outrem, tornando-a ilegítima, constituindo o que passou a designar-se por abuso de direito. Ora, o que é isto senão a legalização da prática de relações de boa vizinhança? Senão a adopção daquela formulação clássica de que "a minha liberdade termina onde começa a do outro"?
A mim pessoalmente não me incomodam os minaretes. Gosto de os ver em qualquer cidade. Gosto da Mesquita de Lisboa, de lá entrar e de olhar para a sua torre que se vê de vários locais distintos. Não me incomoda que possam existir mulheres muçulmanas de burqa a andar pelas ruas das cidades deste país. Preferiria muito mais que andassem como as mulheres ocidentais, mas percebo, tolero, que assim não seja. Não creio que nada disso atente contra o nosso way of life. É precisamente isso que nos dá autoridade moral para criticar e reagir contra todas as atitudes racistas e xenófobas dos extremistas muçulmanos.
Os cartoons de há uns anos sobre o profeta Maomé publicados num jornal nórdico desencadearam uma onda de "proteccionismo de valores" tanto do lado ocidental como árabe. Claro que podiam ter sido publicados sem qualquer censura aos seus autores (e aos editores do jornal). Todas as reacções  civilizadas de rejeição são legítimas e bem vindas numa sociedade plural e informada. Todas. Menos as probicionistas assentes no fundamento da protecção da liberdade. Todas são de uma forma ou de outra libertárias, menos as últimas, profundamente opressoras e reducionistas.