9.1.08

Golpe de teatro (o desrespeito canalha pelo sentimento do povo)


Desde pequeno que me interesso pela política. Tenho entre as minhas memórias mais antigas alguns factos políticos sucedidos em Portugal e no mundo. São vários e uns são mais importantes, outros menos. Adiante.
A partir de determinada altura, pensei em militar num partido. Desafiei, então, dois ou três amigos com quem ia partilhando ideias, mas o projecto nunca avançou. Por alguma razão misteriosa, nunca me decidi a ir sozinho.
Entretanto o tempo foi passando e quiseram os dados da vida que tivesse uma experiência por dentro do Governo. Aí pude aperceber-me da enorme influência que a decisão política exerce sobre a decisão técnica, muitas das vezes injustamente. Foi-se acirrando a minha visão dicotómica (amor-ódio) sobre o fenómeno político. Continuei sem vontade de aderir a uma causa.
No entanto, confesso que por diversas vezes tive algum peso na consciência, ao pensar que é nas piores alturas que as pessoas que (quiçá por estúpida inocência ou qualquer outro defeito do tipo) pensam que têm um contributo a dar que devem dá-lo. Não é quando o mar está calmo e tudo são facilidades. É assim que, pelo menos eu, encaro a coisa. Mas, pouco ou nada interessa. O que é facto é que não fui e assim continuo.
Vem isto a propósito do último golpe de teatro do nosso primeiro ministro, bem como, em certa medida, do próprio presidente da República. O tema é, obviamente, o referendo ao Tratado de Lisboa. Vejamos.
Ontem, de repente, out of the blue, o PR fez uma declaração ao país dizendo que seria um erro a não aprovação do Tratado, com consequências gravíssimas para a Europa. Ora, estando eu longe da vida partidária e não conhecendo, por isso, a agenda dos partidos, não sabia que a Comissão Política Nacional do PS se reunia ontem à noite para discutir precisamente o tema do referendo. Foi por isso que achei estranha a declaração do PR. Concordei, no entanto, com aqueles que dela retiraram um apelo à ratificação parlamentar, fugindo, assim, da consulta pública. Mas já lá vamos.
Só depois, à noite, compreendi o timing do PR: é que reunia, então, a Comissão Política Nacional do PS, em que o primeiro ministro iria tentar fazer votar favoravelmente a opção parlamentar, a qual será hoje discutida (e aprovada) na AR.
É a famigerada cooperação estratégica! De repente, ficou tudo claro.
No entanto, se até pode ser compreensível que os líderes da nação se unam em esforços para cavalgar a onda europeia (sobretudo quando a mesma leva a chancela da capital do país, como se isso nos fosse fortemente favorável...), a cereja em cima do bolo foi a explicação do primeiro ministro à saída da dita reunião do PS para a opção parlamentar em detrimento da referendária, ao arrepio absoluto de uma promessa eleitoral antes feita. Atente-se bem: segundo o PM, o que foi prometido foi o referendo ao tratado constitucional; o que existe agora é o Tratado de Lisboa; ora são coisas «absolutamente diferentes» (sic), pelo que não existiu qualquer quebra de promessas eleitorais por parte do PS e, em particular, do próprio primeiro ministro.
É absolutamente extraordinário! A arrogância intelectual do eng.º Sócrates a vir ao de cima, como se fôssemos todos parvos, como se fôssemos um bando de patetas acéfalos que para aí andam, sem qualquer capacidade crítica face ao que se vai passando no país e no mundo.
Eu já me estou nas tintas para a quebra da promessa eleitoral do referendo, que é evidente que existe, porque a questão terminológica (e até de conteúdo) pouco ou nada importa: o que foi prometido foi levar os portugueses a pronunciar-se quanto ao destino europeu, independentemente da forma que o mesmo tomava então. Não é a primeira por parte deste Governo, como não será certamente a última, como, de resto, tantos outros Governos fizeram, invocando sempre motivos mais ou menos plausíveis. Agora, o que me choca profundamente, é esta arrogância mesquinha, esta ideia de que se dizem três ou quatro patacoadas e o povo engole como se fosse todo ele afectado por um atraso mental profundo e irreversível. Estou chocado e vou continuar chocado com a sem vergonha de um homem que comanda os destinos do meu país. Mas não é o único responsável: Cavaco Silva tinha aqui um papel fundamental, independemente de estar ou não de acordo com a opção tomada a final. Um papel moralizador, de farol da decência democrática e do respeito pelo povo (não é pelos eleitores, é pelo povo, porque isto que está a acontecer é um desrespeito por todos os portugueses com capacidade mínima de compreensão). Mas o que é que se vê? Um PR a fazer uma declaração asséptica, interessando-lhe muito mais o resultado final do que os meios utilizados para lá chegar. Interessando-lhe muito mais esse resultado do que a explicação do mesmo.
Ora, voltando ao princípio, é isto que me repugna na vida política. É isto que me faz sentir um profundo desprezo por esta gente que brinca com todos nós como se fôssemos marionetas nas suas mãos.
A isto mal se responde com palavras. A forma como se responde a isto é com um tabefe seco e bem dado. Porque o desprezo que se deve sentir por esta gente é enorme e o desprezo merece altivez e nobreza de sentimentos. Coisa que esta gente está longe de ter.