
Muito se tem dito e escrito acerca da entrada da Turquia na UE. Confesso que depois de ler e ouvir argumentos contra e a favor, não consigo ter uma opinião assente relativamente ao assunto. Se é verdade que a UE teria a ganhar em múltiplos domínios com a entrada da Turquia (aproximação do Oriente e do Médio Oriente, defesa, território), também não é falso que existem diferenças culturais quiçá demasiado acentuadas para proceder a uma correcta integração. Penso que a questão se deve colocar da seguinte forma: assuma-se que a entrada da Turquia marca um ponto de viragem incontornável (e porventura irremediável) na história da UE, um ponto a partir do qual nada mais será como dantes, porque é permitido o acesso a uma cultura com raízes profundamente distintas das dos restantes países de matriz europeia. Se se aceitar este facto de bom grado, se se aceitar que a UE poderá deixar de o ser (enquanto união de países europeus), passando a ser um conjunto (porventura até mais coeso) de países europeus, do leste europeu, da ásia, futuramente do próximo Médio Oriente, etc., então não haverá incovenientes de maior em aceitar a Turquia. No entanto, se a UE quiser manter-se como uma união de Estados europeus, dominados por uma mesma matriz cultural e de pensamento, creio que tudo será diferente.
Vem isto a propósito de ter há alguns dias visto um (excelente) programa na RTP 2 sobre a Turquia, no qual era mostrada a Turquia profunda, ou seja, a Turquia para lá de Istambul, a magna capital que consegue congregar o Ocidente e o Oriente. Nessa Turquia profunda, com lutas de camelos enraivecidos pela fome e cansaço (provocados), com lutas profissionais de homens banhados em azeite e apenas portadores de uns calções de pele, de gente rude, arreigada aos seus costumes, muito longe da civilização europeia (entendida em sentido neutro), será que a Europa tem lugar? E colocada a pergunta ao contrário: será que a Europa tal como existe hoje tem lugar para tamanha diversidade, quando essa diversidade representa provavelmente um novo caminho e uma redefinição do "estilo" europeu?
Fico na dúvida, não conseguindo, ainda, optar. Inclino-me para a negativa, ou seja, para a não entrada daquele país na UE, não por qualquer espécie de elitismo (que raio de país é Portugal para ter a veleidade de querer ser elitista?...), mas porque considero que talvez existam demasiadas diferenças culturais que aproximam muito mais a Turquia dos países do Oriente e do Médio Oriente do que da Europa ocidental.
(continua)