Não me chocaram ontem os resultados do referendo. Como não me chocaram, de forma especial, os festejos ligados ao "sim". O mesmo não poderá dizer-se da festa do "não". Baterem-se palmas durante vários minutos antes de Isilda Pegado falar pareceu-me despropositado e, mais do que tudo, enganador perante a derrota daquela plataforma.
Noutro pólo, o discurso de Ribeiro e Castro foi ajustado e realista: assumiu a derrota condignamente e referiu um aspecto muito importante para quem defendeu o "não" estruturadamente como foi o caso do CDS-PP: a premência de criar mecanismos para que a "vida" continue a ser protegida tal como se o "não" tivesse ganho. É, de resto, esta a questão que mais me preocupa e suscita curiosidade. Saber até que ponto parte significativa dos movimentos do "não" desistem pura e simplesmente da sua luta e abdicam em favor do SNS e das clínicas privadas e do respectivo enquadramento face à futura nova lei.
Penso que é nesse tabuleiro que se vai ver daqui por uns anos quem efectivamente ganhou: se os defensores do "sim" ao defender que haverá um menos número de abortos e que, tendencialmente, estes entraram nas estatísticas oficiais, saindo, assim, da clandestinidade; se os defensores do "não", ao afirmarem que a nova lei não vai pôr termo ao drama do aborto clandestino, apenas tratando de uma franja relativamente pouco significativa da população que a ele recorre.
É pensando nisto que me parece que, a partir de hoje, não deverá haver vencedores nem vencidos, antes todos trabalhando para uma causa comum: a diminuição, tão grande quanto possível, do número absoluto de abortos praticados em Portugal e - já que o "sim" ganhou - a concessão de condições de saúde a quem a ele recorre nos parâmetros da lei.