Há pouco ouvi um comentário bastante alargado de um politólogo social acerca da tolerância em Portugal. Entre algumas coisas certas, como, por exemplo, a de que (em alguns sectores) só aparentemente Portugal é um país tolerante, houve uma que me deixou estupefacto: a de que a criminalização do aborto é uma manifestação de intolerância, porque diametralmente oposta à liberdade. E continou dizendo que não apenas à liberdade da mulher, mas também à "nossa" (leia-se da sociedade) liberdade. Fechando, dizia que ao defender-se (como aconteceu esta semana) que existe um direito natural que impede o Governo de legislar sobre o aborto, dado que se está a tratar da vida de seres humanos, se está a atentar contra a democracia, uma vez que esta é essencialmente feita de liberdade.
Acho importante debaterem-se ideias e argumentos. O que, no entanto, me preocupa é o facto de se invocar o valor da liberdade como sendo supremo a todas as outras coisas. É evidentemente legítimo que assim se pense e para que o faz, também me parece evidente que a criminalização ou a simples proibição do aborto não faz qualquer sentido. A questão que deve ser colocada - e não pode nem deve ser escamoteada - é que quando se trata do aborto, é a vida humana que está em jogo. Quer se queira, quer não e dando a isso a importância que se entender. Mas é um facto incontornável. Para quem defende a liberdade como valor maior, essa vida humana deve ser sacrificada em prol da livre opção da mulher, mas deve igualmente - só pode - assumir que, ao fazê-lo, está a escolher a não-vida de alguém. E isso deve de facto ser assumido, sob pena de uma hipocrisia em toda a linha.
Entendo que a visão do politicamente correcto impeça que quem defende publicamente a liberdade como questão filosófica primordial (e, na mesma linha, também o aborto e o direito das mulheres ao seu corpo) não possa dizer abertamente que prefere essa liberdade à vida humana. Mas devia. E devia a bem da clareza das ideias e da honestidade intelectual.
Ora, em meu entender, tal posição - independemente de com ela se concordar ou não - é perigosa, porque põe em causa um valor absoluto e indiscutível, que é o da vida. Não podem existir excepções relativamente a alguns valores e a vida é um deles.
A indisponibilidade da vida não serve apenas para proteger futuros homens e mulheres que, num estádio ainda prematuro da sua evolução, não passam de embriões; serve também para proteger-nos a nós todos, em última análise, à própria Humanidade, enquanto conjunto de homens e mulheres que tem, acima de tudo, o direito de viver.
Por isso, quem do ponto de vista filosófico defende a liberdade como valor supremo, deve assumir que, no caso do aborto, com essa opção está a escolher a não-vida e a sobreposição de egoísmos (transfigurados no tão propalado valor supremo da liberdade) que tem um risco subjacente que é a permissão para que quem já viva tenha o poder - do meu ponto de vista absolutamente ilegítimo - para exercer o poder de escolha sobre quem vai ou não viver. Ora, isso é totalmente inaceitável.