Foi quase doloroso ver a entrevista de Mário Soares na 4.ª feira à TVI. A enorme fatia da entrevista (no final fiquei, aliás, com a sensação de ter sido a entrevista inteira), passou-a a atacar Cavaco Silva. Pergunto-me como é que alguém com a experiência de Mário Soares comete um erro destes. Ou será que isto passa entre o público e faz ganhar votos?
Para além disso, foram inúmeras as contradições em que entrou como aquela de chamar “político intermitente” a Cavaco Silva, depois de, como se sabe, acusá-lo de não se assumir como político profissional, ou a de dizer que Durão Barroso tinha fugido das suas responsabilidades, depois de, ele próprio, Mário Soares, ter fugido quando confrontado com o facto de Guterres ter abandonado o Governo com o célebre discurso do pântano, ou, ainda, quando, de forma quase bacoca, tentou imputar o deficit e a actual situação do País aos Governos de Cavaco Silva e Durão Barroso, como se entre eles não tivesse havido sete anos de um outro Governo, ou, por fim, quando tentou justificar o elogio feito há uns meses a Cavaco Silva dizendo que era um bom candidato a Belém, justificando ter-se tratado de um mero acto de cortesia tendo em conta que o mesmo era seu convidado numa palestra organizada pela Fundação Mário Soares…
Enfim, é custoso ver alguém com o passado de Mário Soares enleado na sua própria teia, dando a ideia de já não haver agilidade mental para (tentar) justificar o que é, provavelmente, injustificável.
Por fim, uma nota para dizer que lhe fica mal, muito mal, revelar em público, com o único intuito de o diminuir, um episódio sucedido num evento internacional em que, alegadamente perante uma invectiva de Fidel Castro, Cavaco Silva terá preferido ser Mário Soares a “defender os interesses de Portugal”. Não sei, nem me interessa, se assim terá sido. O que importa é a quase falta de escrúpulos de Mário Soares, trazendo para a praça pública episódios que não devem ultrapassar nunca a sua esfera própria e, sobretudo, não devem em circunstância alguma ser utilizados como arma de arremesso pessoal e política.
Talvez um dos (vários) sinais do desespero que Mário Soares tem vindo a revelar.