9.2.10

Deamblogações matinais

 

Há dias ainda não eram 7 da manhã e estava eu à frente da Assembleia da República à espera de alguém. Olhava então para aquela escadaria, deserta àquela hora, apenas com os dois habituais guardas que falavam entre eles para disfarçarem o frio. Enquanto observava, dava-me conta de que a localização do Parlamento é pouco mais do que ridícula. Um edifício daquele calibre, sem dúvida alguma imponente e bonito, com uma escadaria enorme e bem apresentada, dá para uma rua pequena, estreita, em que há uma espécie de rotunda sem o ser, não permitindo que as pessoas gozem do espaço e do edifício. De facto, quem se colocar defronte da AR em plena Rua de São Bento, perceberá o que digo. Aliás, isso mesmo é visível sempre que há manifestações, aí se percebendo bem quanta gente (não) cabe ali à frente.
Isto não me fazia qualquer impressão se vivêssemos numa cidade ou num país em que polulassem monumentos, palácios, museus, etc.. Não é, infelizmente, o caso. É, pois, uma pena que os poucos que existam estejam encolhidos entre ruelas que não têm sequer dignidade para o ser.
Ora, hélas!, acho que isto é uma espécie de sinal visível do que é a nossa democracia: feita de costas voltadas para as pessoas, escondida, envergonhada e sem orgulho nela própria. O Parlamento está ali implantado por acaso; um enxerto no meio de ruas estreitas cuja localização não obedeceu, parece, a qualquer planeamento. Antes a frontaria desse para a Calçada da Estrela e esta não fosse transitável, podendo-se assim ganhar distância e, nessa medida, (alguma) imponência própria de um edifício desta natureza.
Pensava nisto ainda não eram 7 da manhã, ali parado. Pensava em como a AR é um pormenor no meio da cidade em vez de ter a altivez inerente à função. Como boa parte dos seus inquilinos:  pequeninos, poucochinhos, ali por mero acaso, pelo acaso das trocas de favores que vão acontecendo e que lhes vão governando as vidas.